A violência no campo brasileiro diminuiu em número de
registros, mas se intensificou em gravidade em 2025. Dados divulgados
pela Comissão Pastoral da Terra nesta segunda-feira (27)
mostram que o país teve 1.593 conflitos por terra, água e trabalho
no ano passado, uma queda de 28% em relação aos 2.207 casos registrados em
2024. O recuo estatístico, porém, veio acompanhado de um agravamento dos
episódios mais extremos: os assassinatos em conflitos agrários dobraram,
saltando de 13 para 26 vítimas.
Mais da metade dessas mortes ocorreu na Amazônia Legal, que concentrou 16 assassinatos, distribuídos entre Pará, Rondônia e Amazonas. Segundo o relatório, a região segue como principal fronteira dos conflitos fundiários no país, marcada pela expansão da grilagem, da mineração, do garimpo e do avanço agropecuário sobre terras públicas e territórios coletivos. A CPT identifica nesse cenário a consolidação de um padrão em que crime organizado, agentes privados e fragilidades do Estado se articulam sobre áreas em disputa.
Os conflitos por terra continuaram sendo o núcleo da violência
agrária, com 1.286 ocorrências, das quais 1.186 relacionadas diretamente a
violência por ocupação e posse, e outras 100 ligadas a ações de resistência,
como retomadas, acampamentos e ocupações. Fazendeiros aparecem como principais
agentes envolvidos nos assassinatos registrados, relacionados a 20 dos 26
casos, segundo o levantamento. O relatório também aponta crescimento de outras
formas de violência frequentemente subnotificadas, como
prisões, humilhações, cárcere privado e destruição de bens de comunidades em
conflito.
Outro
dado que chamou atenção foi o avanço dos casos de trabalho análogo à escravidão no
meio rural. Segundo a CPT, 1.991 trabalhadores foram resgatados dessa condição
em 2025, em um cenário que conecta exploração laboral e
disputa territorial, sobretudo em áreas de expansão da fronteira agrícola e
extrativa. Também persistiram conflitos por água, envolvendo comunidades
impactadas por barragens, monocultivos, mineração e apropriação privada de
recursos hídricos.
Embora
o número total de conflitos tenha recuado, o diagnóstico da CPT é
de que a violência não diminuiu, apenas se concentrou em menos territórios, com
maior intensidade. Em ano marcado pela preparação para a COP30 e
pela disputa em torno de agendas sobre terra, clima e infraestrutura, o
relatório recoloca a questão agrária como eixo do debate socioambiental
brasileiro, com a Amazônia permanecendo como seu ponto mais crítico. (IHU)
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