terça-feira, 28 de abril de 2026

Assassinatos dobram e Amazônia concentra violência no campo, aponta relatório da CPT

violência no campo brasileiro diminuiu em número de registros, mas se intensificou em gravidade em 2025. Dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra nesta segunda-feira (27) mostram que o país teve 1.593 conflitos por terra, água e trabalho no ano passado, uma queda de 28% em relação aos 2.207 casos registrados em 2024. O recuo estatístico, porém, veio acompanhado de um agravamento dos episódios mais extremos: os assassinatos em conflitos agrários dobraram, saltando de 13 para 26 vítimas.

Mais da metade dessas mortes ocorreu na Amazônia Legal, que concentrou 16 assassinatos, distribuídos entre ParáRondônia e Amazonas. Segundo o relatório, a região segue como principal fronteira dos conflitos fundiários no país, marcada pela expansão da grilagem, da mineração, do garimpo e do avanço agropecuário sobre terras públicas e territórios coletivos. A CPT identifica nesse cenário a consolidação de um padrão em que crime organizado, agentes privados e fragilidades do Estado se articulam sobre áreas em disputa.

Os conflitos por terra continuaram sendo o núcleo da violência agrária, com 1.286 ocorrências, das quais 1.186 relacionadas diretamente a violência por ocupação e posse, e outras 100 ligadas a ações de resistência, como retomadas, acampamentos e ocupações. Fazendeiros aparecem como principais agentes envolvidos nos assassinatos registrados, relacionados a 20 dos 26 casos, segundo o levantamento. O relatório também aponta crescimento de outras formas de violência frequentemente subnotificadas, como prisões, humilhações, cárcere privado e destruição de bens de comunidades em conflito.

Outro dado que chamou atenção foi o avanço dos casos de trabalho análogo à escravidão no meio rural. Segundo a CPT, 1.991 trabalhadores foram resgatados dessa condição em 2025, em um cenário que conecta exploração laboral e disputa territorial, sobretudo em áreas de expansão da fronteira agrícola e extrativa. Também persistiram conflitos por água, envolvendo comunidades impactadas por barragens, monocultivos, mineração e apropriação privada de recursos hídricos.

Embora o número total de conflitos tenha recuado, o diagnóstico da CPT é de que a violência não diminuiu, apenas se concentrou em menos territórios, com maior intensidade. Em ano marcado pela preparação para a COP30 e pela disputa em torno de agendas sobre terra, clima e infraestrutura, o relatório recoloca a questão agrária como eixo do debate socioambiental brasileiro, com a Amazônia permanecendo como seu ponto mais crítico. (IHU)


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