terça-feira, 28 de julho de 2026

"A Cisjordânia está sangrando, os colonos estão aterrorizando". Artigo de Padre Ibrahim Faltas

Na Terra Santa, a violência que nunca a abandonou está se intensificando novamente. Essa violência se estende a novos atos de vingança, aumenta o número de mortos e a destruição, diminui as perspectivas de paz e aprisiona mentes e corações atrás de arame farpado. A Cisjordânia queima, sangra e clama em dor e sofrimento. Assim como Gaza, a Cisjordânia é um território que perdeu sua noção de escala e limites, irreconhecível, uma terra dividida física e socialmente, devastada por feridas profundas e violada em sua identidade histórica. Cada canto desta terra sofre violência e destruição diariamente; cada habitante suporta dificuldades, limitações, sofrimento e humilhação que aumentam a cada dia.

Pessoas estão morrendo em uma guerra não oficial, não declarada, porém contínua, constante e generalizada. A queima de casas e terras é incontável; não é mais possível viajar de uma cidade para outra, ou mesmo entre cidades próximas, para buscar atendimento médico de emergência, trabalhar, ajudar parentes ou defender pequenas propriedades familiares ocupadas e adquiridas ilegalmente por colonos autoritários e violentos. Recebo inúmeros pedidos de ajuda para necessidades que se tornaram graves, perigosas e difíceis de atender. Os inúmeros postos de controle — mais de mil — e postos de controle móveis agora fazem parte de uma paisagem que antes definia a história e a vida dos palestinos: trabalho nos campos, vastos olivais, animais pastando, cidades, grandes e pequenas, repletas de sons, cores e vida.

Ao longo dos anos, os assentamentos cercaram todas as aldeias, todos os sinais e símbolos de coexistência. A vida palestina é permeada pela violência, mas eles não a acolhem; pelo contrário, a sufocam. Abafam as esperanças dos jovens que nem sequer conseguem imaginar o seu futuro, destroem as expectativas daqueles que trabalharam incansavelmente para construir o passado e o presente, e destroem os sorrisos e os sonhos das crianças que veem a sua terra devastada, reduzida a nada e desprovida de cor. Pais impossibilitados de levar seus filhos ao hospital para cuidados frequentes, filhos impedidos de reencontrar seus pais idosos e doentes, pais detidos em postos de controle que os impedem de ir trabalhar: essas são situações que se repetem há meses, até mesmo anos, na Cisjordânia. As pessoas estão desesperadas e aterrorizadas pelas inúmeras incursões de colonos que, impunemente, semeiam medo e terror entre os pobres, que não encontram refúgio nem mesmo em suas próprias casas.

Os apelos urgentes do Santo Padre pelo fim da violência devem ser ouvidos tanto por aqueles que a perpetram quanto por aqueles que se omitem em intervir para deter essa espiral interminável. As eleições anunciadas e agendadas para os próximos meses em Israel e na Palestina devem trazer um novo equilíbrio e verdadeira justiça para ambos os povos. A esperança de que o curso da história possa ser mudado não abandona aqueles que têm fé e confiança no Senhor.

A geração mais conectada de todos os tempos nunca esteve tão sozinha. Artigo de Josiane Tonelotto

Nunca uma geração teve tanto acesso à informação, entretenimento e conexão com qualquer parte do planeta. Basta um toque para falar com alguém do outro lado do mundo ou acompanhar a vida de milhares de pessoas. Ao mesmo tempo, nunca se relatou tamanha sensação de vazio. Esse paradoxo é um dado que merece muita atenção. Já em 2019, antes da pandemia, a Organização Mundial da Saúde registrou que cerca de 14% dos adolescentes no mundo tinham algum transtorno mental.

O suicídio respondia por mais de uma em cada cem mortes nessa faixa etária. A Covid-19 não criou o problema, mas o tornou visível e de forma brutal. No Brasil, estudo da Fiocruz publicado em dezembro de 2025 com dados do SUS mostrou que jovens de 15 a 29 anos têm o maior risco de suicídio do país: 31,2 por 100 mil habitantes, acima da taxa geral de 24,7. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024, do IBGE, com mais de 118 mil estudantes de 13 a 17 anos, divulgada em março de 2026, revela que 3 em cada 10 adolescentes se sentem tristes sempre ou na maior parte do tempo. Quase um em cada cinco diz que a vida não vale a pena. São números dolorosos que, mais do que conhecer, precisamos compreender. O sofrimento dessa geração não é fraqueza nem modismo. Tem causas concretas, que se sobrepõem no período mais delicado do desenvolvimento humano: a adolescência e início da vida adulta. Do ponto de vista biológico, neste momento o cérebro ainda está em plena reorganização. O córtex pré-frontal, responsável pelo controle emocional e pela tomada de decisões, só atinge maturidade por volta dos 25 anos. É também o período em que cada jovem busca responder, as vezes sem apoio suficiente, às perguntas mais difíceis da vida: quem sou, o que valorizo, onde me encaixo. Essas perguntas sempre existiram. O que mudou profundamente foi o ambiente em que precisam ser respondidas: um ambiente de comparação permanente, pressões aceleradas e vínculos cada vez mais frágeis.

Esse período de vulnerabilidade biológica coincide com transformações tecnológicas, culturais, familiares e institucionais mais rápidas do que nossa capacidade coletiva de resposta. Os jovens não estão piores do que os de gerações anteriores: enfrentam condições mais complexas, com menos suporte do que precisam e uma profusão de estímulos informacionais, justamente no momento do desenvolvimento em que são mais vulneráveis. Esse é um terreno fértil para o adoecimento. Ansiedade depressão são hoje os transtornos mentais mais comuns entre jovens, com crescimento expressivo no consumo de antidepressivos, inclusive por automedicação. O sinal de alerta está aceso. A pergunta que se impõe não é apenas o que está acontecendo com os nossos jovens, mas sim o que estamos fazendo, ou deixando de fazer, para mudar esse quadro.

Cuidar da saúde mental dos jovens não é tarefa exclusiva de especialistas. É uma responsabilidade coletiva: validar emoções em vez de minimizá-las, criar espaços reais de escuta, permitir que a frustração faça parte da vida, porque ela faz, e compreender que resiliência não é ausência de sofrimento, mas a capacidade de atravessá-lo e seguir. Uma geração que não aprende a lidar com o que sente não encontrará, no futuro, recursos para lidar com o que viver.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

COMUNIDADES CATÓLICAS DE AÇAILÂNDIA NO DIA 26 DE JULHO CELEBRAM MAIS UMA 'FESTA DA COLHEITA'

 

FESTA DA COLHEITA 2026 – MORADIA E POLÍTICAS PÚBLICAS

Não existe colheita se não há frutos! Como celebrar a Festa da Colheita se há escassez de frutos porque não houve verdadeira semeadura, ou por ela ter sido inadequada?

Muitos de nós que vêm se engajando e participando da tradicional Festa da Colheita que, há mais de 10 anos a igreja católica da região pastoral de Açailândia vem promovendo, gostariam de saborear alguns frutos das Políticas Públicas que são implementadas no nosso território. Infelizmente, estamos submetidos a uma espécie de jejum forçado. Constatamos uma grave escassez de frutos maduros quanto ao reconhecimento concreto dos nossos direitos à habitação, à educação, à saúde, às infraestruturas, ao ambiente, à assistência para quem produz e trabalha na terra.

O tema da Festa da Colheita – Moradia e Políticas Públicas, - deste ano se transforma num grito de alerta para que os gestores públicos do nosso município despertem, e cuidem conosco do imenso solo que somos nós, cidadãos e cidadãs de Açailândia!

Em primeiro lugar a moradia, - que é o tema central da Campanha da Fraternidade deste ano, - entendida como espaço não somente físico, mas como lugar humanizador de direitos.

Moradia como ‘manjedoura acolhedora’, onde nos sentimos aliados uns dos outros, protegidos e amados. Onde deveríamos experimentar respeito e paz, segurança afetiva e alimentar, moral e ambiental, para nós e para os nossos filhos.

Lamentavelmente, constatamos que a maioria absoluta das nossas moradias carece ainda de saneamento básico, de água potável, de calçamento adequado, e iluminação pública suficiente, entre outros, no entanto os valores das taxas públicas que temos que pagar, mensalmente, chegam a ser escorchantes. Muitas das nossas famílias ainda não possuem casa própria, vivem precariamente, sem documentação, e de aluguel, cujos valores aumentam a cada dia.

Em segundo lugar, o prato das Políticas Públicas que nos é servido pela administração municipal e estadual comprova que faltam aquelas ‘primícias essenciais’ que ardentemente almejamos, e que desde há muito tempo nos foram prometidas.

Muitas famílias gostariam de colher e de se fartar dos frutos maduros de um sistema educacional abrangente e de qualidade; de um acompanhamento atencioso à saúde preventiva, - principalmente para os mais fragilizados, - e no atendimento médico-hospitalar digno; de uma implementação urgente e definitiva de um sistema de saneamento básico para todos e, enfim, de mecanismos efetivos para combater e evitar a poluição que vem destruindo vidas.

Que nesta Festa da Colheita nos sintamos autênticos semeadores, dedicados, e conscientes de que temos muitas sementes boas para plantar no nosso território. Que ninguém desperdice essas sementes e que ninguém se canse de preparar adequadamente o ‘solo humano-espiritual’ de cada cidadão e cidadã para que germine e floresça, abundantemente, a justiça, a paz, e o BEM-VIVER!

 

 

17ª domingo comum - É preciso investir tudo no que dá sentido à vida!

O verdadeiro dilema e desafio na vida é descobrir uma vez por todas o ‘verdadeiro tesouro’ que dá sentido e que proporciona a alegria de viver. De fato, parece que ao longo da nossa trajetória humana, à procura de felicidade, nos equivocamos frequentemente nas nossas escolhas. Afinal, a felicidade jamais pode ser o objetivo último; ela é, isso sim, o ‘salário-tesouro’ que ganhamos ao vivermos plenamente aqueles valores com os quais nos identificamos. Jesus deixa claro que ao descobrirmos o verdadeiro sentido da nossa vida temos que ser radicais em subordinar tudo a ele. Lembra-nos que não pode haver nenhuma tentativa de conciliação entre o que nos preenche de verdade com o que as nossas ambições desviantes, muitas vezes, almejam. Se descobrimos, por exemplo, que nos sentimos bem em nos doar, em servir, em acolher, em sermos honestos, em estar próximos das pessoas, - mesmo experimentando carências e incompreensões, - é imperativo renunciar, radicalmente, ao desejo de querer acumular, mandar, manipular, e se preocupar só consigo mesmo. É preciso, portanto, fazer um discernimento-separação como um bom pescador faz após uma pescaria, e escolher o que vive e dá vida-felicidade, e não o que representa podridão, morte e vazio interior.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

A praga das bets. Artigo de André Islabão

 Agora que a Copa do Mundo acabou de maneira constrangedora para os brasileiros, um dos assuntos mais quentes é a discussão sobre a praga das apostas virtuais (as chamadas "bets") e os danos que elas causam à sociedade. Para quem ainda não sabe, o vício em jogo já é bem estabelecido como uma doença mental (o transtorno do jogo ou ludopatia) e pode causar tantos males à saúde quanto o vício em cigarros, álcool, drogas e outras tantas adicções.

Porém, as chamadas bets representam algo muito mais pernicioso para a sociedade, uma vez que a tentação está sempre presente na tela do smartphone ou computador do usuário, o que garante que o vício seja perpetuado por meio de um círculo vicioso alimentado por doses generosas de ganância e dopamina. É basicamente como ter um traficante de drogas dentro de casa e sempre à disposição.

As histórias de pessoas que perdem as economias de uma vida em apostas virtuais ou que cometem suicídio em decorrência disso têm aumentado de maneira assustadora, não deixando dúvida de que o vício em bets representa um problema gigante em termos de saúde pública. Para se ter uma ideia, um levantamento nacional sobre o assunto mostrou que mais de 10 milhões de pessoas apresentam problemas relacionados ao jogo no Brasil, muitas vezes envolvendo as apostas virtuais, o que desencadeia doenças mentais graves e dificuldades financeiras que envolvem não apenas o paciente e a família, mas toda a sociedade.

As pesquisas também mostram que o país gasta mais em apostas virtuais do que em saúde pública. O gasto com as bets em 2026 já passa de incríveis 30 bilhões mensais, enquanto o orçamento mensal do SUS não chega a 20 bilhões. A simples observação desses números deixa claro que vivemos em uma sociedade absurdamente adoecida. Para piorar, gastamos duplamente com as bets: gastamos bilhões ao fazer as apostas e depois gastamos mais um tanto para oferecer atendimento a uma população cada vez mais viciada.

Para quem ainda acredite na lisura dessas apostas virtuais, é interessante observar um estudo de 2023-2024 realizado pelo Itaú após analisar, durante um período de 12 meses, as movimentações financeiras envolvidas na jogatina desvairada: enquanto os brasileiros gastaram nada menos que 68 bilhões em apostas, os prêmios arrecadados pelos poucos felizardos somaram escassos 200 milhões. Ou seja, as casas de apostas embolsaram descaradamente bilhões de reais dos jogadores incautos.

Mas o problema mais grave envolvendo as chamadas bets e a sociedade talvez seja a desfaçatez com que lidamos com o problema. Enquanto os profissionais de saúde lidam diariamente com um número crescente de doenças relacionadas ao vício em jogo, a sociedade segue aplaudindo exatamente aquelas pessoas que só fazem piorar o problema, ou seja, todos aqueles que aceitam dinheiro das empresas de apostas virtuais para fazer propaganda da jogatina e levar as pessoas e a sociedade à bancarrota econômica e moral.

Essas são as chamadas celebridades, aquelas pessoas que, muitas vezes por motivos alheios ao bom senso, a sociedade escolheu para serem celebradas e servirem de modelo à nação. Entre essas celebridades que canhestramente emprestam seu nome e imagem para a exploração das bets estão muitos jogadores de futebol, astros da música popular e apresentadores de programas de TV. O que todos eles têm em comum, além de uma queda por ganhar dinheiro fácil, é o descaso pelas consequências de suas decisões.

comentário do blogueiro - Tiro o chapéu para o craque de futebol francês, Mappé, que sempre vem se recusando a fazer qualquer tipo de publicidade em favor de Bets ou permitir o uso da sua imagem relacionada a essa praga....

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Indígena Guajajara é assassinado na Terra Indígena Canabrava no Maranhão

A Polícia Civil do Maranhão instaurou um inquérito para investigar a morte do indígena Gedequias Pereira Araujo Guajajara, de 35 anos. Ele foi baleado no domingo (19), na Aldeia Jerusalém, em Jenipapo dos Vieiras. A motivação do crime ainda é desconhecida. Segundo a polícia, Gedequias foi baleado durante uma discussão em um bar e restaurante da comunidade. Familiares o socorreram e seguiram em direção a Grajaú, mas ele morreu antes de chegar ao hospital. A Polícia Civil apontou Manoel Ornilo Vieira Lopes como o principal suspeito do homicídio. Ele fugiu do estabelecimento após o disparo e ainda não havia sido localizado até a publicação desta reportagem. Indígena morre após ser baleado durante discussão em aldeia no Maranhão. Os levantamentos iniciais indicam que Gedequias e o investigado mantinham uma convivência aparentemente pacífica. Até o momento, a polícia não encontrou registros de desavenças anteriores entre os dois. A polícia vai apurar a motivação e as circunstâncias do crime. Testemunhas que estavam no estabelecimento durante a discussão também deverão ser ouvidas. (Imirante)

  

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Feminicídio aumenta, principalmnte na América Latina e Caribe

 

Observatório da Igualdade de Gênero da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) das Nações Unidas registrou 19.254 feminicídios nos últimos cinco anos, ou seja, 11 mortes violentas de mulheres por motivos de gênero todos os dias, uma a cada duas horas.

Em 2024, 14 dos 25 países com as maiores taxas relativas de feminicídio no mundo estavam localizados na América Latina e no Caribe (ONU Mulheres e CEPAL), liderados por Honduras, com 4,7 vítimas por 100.000 mulheres, seguidos pela Guatemala (1,9) e pela República Dominicana (1,7). Este número não leva em consideração a enorme subnotificação de dados, principalmente devido ao medo ou à incapacidade de denunciar os crimes e, muitas vezes, à falta de confiança nas forças policiais e no sistema judiciário, que é percebido como indiferente, arrogante ou até mesmo conivente com os agressores.

Esses números superam em muito a média regional, que varia de 1 a 1,3 caso por 100.000 mulheres. Brasil e México lideraram a lista de países com o maior número absoluto de feminicídios, com 1.568 e 768 homicídios, respectivamente (2025). Quarenta e dois por cento dos ataques fatais são cometidos por um parceiro atual ou anterior, e o ambiente doméstico é a principal fonte de risco, particularmente para as mulheres entre 21 e 30 anos (22% dos feminicídios). Em 2025, em Honduras, o observatório do Centro de Direitos das Mulheres (CDM) registrou 936 ataques contra mulheres e meninas, incluindo 412 crimes sexuais e 262 feminicídios. Isso significa que, em Honduras, uma mulher ou menina é assassinada a cada 33 horas. Quarenta e seis por cento das vítimas têm entre 11 e 39 anos, representando um aumento de 49% em comparação com o ano anterior.

A maioria dos agressores fazia parte do círculo mais próximo das vítimas. Pela primeira vez, os crimes sexuais (44%) ultrapassaram os crimes contra a vida (31%), afetando principalmente meninas e mulheres jovens (297). Os relatos de violência doméstica totalizaram 41.895 e os de violência familiar chegaram a 48.642. Nos primeiros seis meses de 2026, a situação permaneceu inalterada. O Observatório registrou 126 mortes violentas de mulheres, uma a cada 34 horas. Em maio, oito mulheres foram assassinadas em apenas quatro dias, quatro delas menores de idade. Diante da gravidade da situação e da significativa subnotificação dos casos, o Centro de Direitos das Mulheres (CDM) e cerca de 20 organizações, coletivos e plataformas feministas e de mulheres se posicionaram, exigindo uma abordagem abrangente para a violência contra as mulheres.

“Esses números não são estatísticas abstratas; representam vidas perdidas, famílias destruídas e filhos e filhas crescendo sem suas mães. Cada estatística representa um nome, uma história e uma comunidade que lamenta sua ausência. Diante dessa realidade, nenhuma organização comprometida com os direitos das mulheres pode permanecer em silêncio”, alertam em uma declaração conjunta.

 

Modo de vida dos povos indígenas é antídoto para mudanças climáticas, avalia geógrafo

 

Em sua coluna no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o geógrafo Wagner Ribeiro, professor de pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), explica que as mudanças de temperatura e padrões de chuva, por exemplo, afetam diretamente a oferta de alimentos de determinada comunidade.

“A temperatura mais elevada, por exemplo, vai alterar o ciclo biológico de algumas espécies que são consumidas. A fauna também muda. O pescado também muda, migra para outras áreas, às vezes águas mais quentes, às vezes águas mais frias, a depender da espécie. Então, não há dúvida de que as comunidades originárias acabam sofrendo mais duramente justamente pela sua relação com a natureza”, destaca. O estudo aponta ainda que a manutenção de modos de vida e culturas dessas populações por todo o mundo gera benefícios na conservação de biodiversidade. Nesse sentido, ressalta o professor, as políticas públicas de preservação desses territórios deveriam ser fortalecidas.

“Existem trabalhos acadêmicos que mostram claramente que, nas terras indígenas, a conservação de todo o ambiente é muito maior até do que você ter uma unidade de conservação, por exemplo, fiscalizada por um governo estadual, municipal, federal. Isso tudo representa justamente a manutenção dos ciclos biogeoquímicos, que ocorre nessa área e que, muitas vezes, também tem repercussão para outras áreas. Nós estamos falando, por exemplo, da floresta amazônica. Se você tem ali povos originários vivendo em condição de menor agressão à natureza, eles conseguem manter a floresta em pé, mantêm a possibilidade de reposição de chuvas, mantêm a capacidade de sugar água do subsolo e, por meio da respiração, também oferecer essa água para outras áreas, os rios voadores”, destaca Wagner Ribeiro.

Apesar de todas as evidências científicas, continua o geógrafo, infelizmente os povos originários não têm o merecido reconhecimento e acabam sofrendo diversas violências. “A gente assiste à usurpação de terras, à agressão, às vezes física, quando não verbal. A gente tem acompanhado alguns episódios lamentáveis recentemente, inclusive envolvendo autoridades de estados de destaque do Brasil, por exemplo, e quando, na verdade, [os povos indígenas] deveriam ser reconhecidos pela importância dos serviços ambientais e de manutenção dos ecossistemas”, defende Ribeiro. (IHU)

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

15 domingo comum - Não a semente, mas o solo-receptor é que faz a diferença!

Será que as palavras, por si só, têm poder para motivar, seduzir e fascinar pessoas, ou elas dependem, essencialmente, de quem as comunica? Seja o que for, Jesus parece sugerir um outro caminho: as palavras e seus efeitos transformadores dependem de quem as acolhe! Em outras palavras: podemos ter palavras-sementes de ótima qualidade, serem proclamadas por hábeis e generosos ‘comunicadores-semeadores’, mas tudo vai depender da abertura ou do fechamento de quem as escuta e acolhe! É, afinal, a qualidade do ‘solo humano’, do receptor da palavra que faz a diferença. A parábola hodierna nos mostra que o ‘semeador’ deixa cair, paradoxalmente, sementes valiosas, de qualidade, em vários tipos de solos. Parece não se preocupar em selecionar, previamente, o solo, nem analisar qual poderia ser o mais apto, evitando, assim, desperdícios, e visando, unicamente, o seu pleno aproveitamento. O semeador parece acreditar que todos 'os solos-pessoas', - até os mais impróprios – possuem energia interna para fazer germinar a 'semente-palavra'. Há, contudo, algumas condições para que isto aconteça:1. Não se deixar ‘sufocar’ jamais quando aparece a perseguição e a calúnia por manter fidelidade à palavra anunciada; 2. Jamais permitir que a sedução da riqueza e do poder prevaleça; 3. Nunca desistir quando se experimenta medo e a angústia perante os conflitos e as turbulências da vida. O nosso 'solo humano-espiritual' está pronto para tudo isso?


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Festas juninas - Perguntas ao 'meu São João'....

Porque, ó meu São João, não convidaste as estrelas rodopiantes do céu de Upaon-Açu a dançar ao passo dos claríns do Boi de Axixá para alumiar os cegos corações de quem se alimenta das turvas águas do Bacanga e do Anil?

Porque, ó meu São João, o hipnótico rufar dos teus tambores não comoveu Ogum a baixar, impávido, em quem nunca vibrou na vida, e naqueles corpos suados e transfigurados que só desmaiam pela fome, pelo cansaço e pela dor?

Porque, ó meu São João, ainda iludes as delirantes praças e seus exaltantes arraiais a acreditarem que ainda haverá um amanhã de sol quando, tu bem sabes, que os únicos lampejos nos céus de Gaia são só as flechas incandescentes dos seus temporais?

14 domingo comum - Nada pesa para quem faz com amor!

Há fardos na vida que deixam de ser tais quando compreendemos o sentido e o valor que eles escondem. Assistir um filho ou uma mãe acamada, por exemplo, pode ser um peso fisicamente exigente, mas pode se tornar um ‘jugo’ afetiva e moralmente leve. Compreender o valor da gratuidade e da gratidão ou a generosa doação incondicional para com aqueles que precisam de apoio, nos motiva a estarmos ao seu lado, custe o que custar. Para quem entende isso não existe cruz pesada, nem jugo insuportável, nem sacrifício inútil, nem destino amaldiçoado. As elites sacerdotais e os sabichões cegos da religião oficial não podiam entender isso. Eles foram educados a manter uma relação voltada única e exclusivamente para satisfazer um Deus supostamente desejoso de sacrifícios e mortificações, e não para manifestar solidariedade e compaixão aos seus irmãos e irmãs! Jesus de Nazaré continua a nos alertar, hoje, que preceitos, celebrações, liturgias e ritos, esses sim, se tornam verdadeiros jugos se ignoram que o único e verdadeiro compromisso do discípulo é ouvir, acolher, confortar todos aqueles que estão sendo esmagados sob o peso da indiferença, do abandono e da truculência dos que alimentam a alienação do legalismo e do moralismo do templo, e da lógica perversa de quem vive nos palácios.


sábado, 27 de junho de 2026

Solenidade de Pedro e Paulo - Por uma igreja mais humana!

 Se alguém nos perguntasse quem somos, muitos de nós responderíamos, sem hesitar, que somos, primeiramente, seres humanos. Se, contudo, persistissem em suas indagações e nos perguntassem como cada um de nós se compreende como ‘ser humano’ teríamos, certamente, uma infinidade de respostas. Chegaríamos até, a ensaiar respostas de acordo com as expectativas dos nossos pesquisadores. De fato, temos dificuldade em nos definir, e em nos expor para os outros. No evangelho de hoje Jesus, por sua inciativa, se assume, de imediato, como ‘filho do homem’ com tudo o que isso acarreta. Não receia em indagar os seus discípulos para saber como o povo compreende a sua ‘humanidade’ ou, a sua missão como ‘ser humano’ no meio dele. Ao ouvir as diferentes respostas, Jesus não esconde a sua decepção. Afinal, Ele é equiparado a alguns dos míticos profetas, semideuses, do passado de Israel. Jesus percebe que não estava sendo entendido como ‘filho do homem’, humano entre os humanos, mas como um semideus., uma espécie de líder celestial Ele que movido pela compaixão quis se igualar em tudo à condição humana, não havia sido acolhido como humano no meio dos humanos. O povo de ontem e de hoje, e o próprio Pedro, continuam, no fundo, a desejar ainda ‘messias’ e supostos ‘ungidos’ para poder delegar a esses supostos salvadores da pátria o que os ‘humanos’ não querem assumir!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Comissão da ONU acusa Israel de visar crianças palestinas e denuncia 'genocídio' em Gaza

 

Em 23 de junho, uma comissão internacional de inquérito mandatada pela ONU acusou Israel de ter como alvo crianças em Gaza. Em um relatório de cem páginas, os especialistas documentam violações e crimes cometidos por Israel contra menores palestinos no território desde 7 de outubro de 2023 até 31 de março de 2026 e concluem, com base em "fundamentos razoáveis", que Israel está cometendo genocídio.A reportagem é publicada por RFI, 25-06-2026.


Mais de 20 mil crianças foram mortas na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 7 de outubro de 2025, cerca de 40 mil ficaram feridas e mais de 58.500 perderam pelo menos um dos pais ou ficaram órfãs. No relatório, os especialistas destacam que “o ataque deliberado às crianças é um dos principais elementos que estabelece a intenção genocida das autoridades e forças de segurança israelenses de destruir o ‘grupo palestino’, no todo ou em parte, em Gaza”. Para a comissão, as crianças personificam o futuro do grupo, e destruí-las compromete sua capacidade de sobreviver. Segundo o documento, as forças israelenses têm como alvo crianças de maneira direta e indireta, ao bombardear sistematicamente áreas residenciais, escolas e campos de refugiados superlotados. Israel também perturba sistematicamente a capacidade de aprendizagem das crianças: 97% das escolas foram destruídas e 95% das universidades foram atingidas em Gaza; 22 dos 38 centros de estudos superiores foram completamente destruídos. Para a comissão, o desmantelamento das estruturas de proteção e educação comprometeu o desenvolvimento dos menores e enfraqueceu “os alicerces da sociedade palestina”.

Estado israelense também tem como alvo os serviços neonatais e de maternidade, provocando, entre outros efeitos, aumento de abortos espontâneos e malformações congênitas. Além disso, a fome imposta em Gaza causou mortes infantis. Em 1º de outubro de 2025, 151 mortes de crianças por subnutrição haviam sido registradas.

Mas Israel também ataca diretamente as crianças. Tel Aviv usa armas de precisão como quadricópteros, drones e rifles, visando especificamente menores de idade na cabeça e na parte superior do corpo “para infligir o máximo dano”, diz Srinivasan Muralidhar, presidente da comissão. O relatório cita o caso de um bebê atingido na cabeça por um drone com câmera infravermelha enquanto era amamentado em uma barraca. Outro caso que ganhou destaque internacional foi o da menina Hind Rajab, morta quando tentava deixar a Cidade de Gaza com sua família.

 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

12°Domingo Comum - 'NÃO TENHAIS MEDO'!

Sentir medo faz parte da nossa estrutura emocional. É um mecanismo do nosso cérebro para se antecipar, e nos preservar de eventuais perigos e ameaças iminentes ou futuras. Contudo, quando o medo, em lugar de desencadear em nós uma reação positiva para superá-lo e enfrentar os supostos perigos, e chega a nos paralisar e dominar, ele se torna uma perigosa fobia. Algo patológico que não nos deixa viver com dignidade e liberdade. É a esse tipo de medo que Jesus parece se referir no evangelho de hoje. O ‘Não tenhais medo’ que o Mestre repete como uma espécie de refrão é dirigido aos seus seguidores que fazem a experiência concreta da perseguição e do banimento público por serem discípulos Dele. Jesus os incentiva a enfrentar o medo que Ele sabe ser real, e a não se deixar travar por ele. Ao mesmo tempo, Ele os motiva a não negociar com o medo ao compactuar com quem os ameaça e persegue, e a não renunciar jamais às suas convicções e aos seus testemunhos. Talvez, hoje, estejamos enfrentando dentro da igreja de Jesus outros ‘medos’ extremamente perigosos e patológicos: o medo de um 'deus' entendido como juíz intransigente e castigador; o medo de perder privilégios e poder; o medo de perder uma fantasmagórica e imutável ‘identidade católica’; o medo de perder fregueses devotos, e não discípulos! Na realidade, o verdadeiro ‘medo’ que deveríamos sentir é o de trair e renegar o Pai e o seu Reinado de amor e de compaixão!  

sábado, 13 de junho de 2026

XI Domingo Comum - Para ser discípulo de Jesus é preciso sentir indignação e compaixão!

"Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca". (Ap.3,16) O indiferente, o apático é incapaz de sentir nele a dor e a alegria que existem no outro. Às vezes, tem-se a impressão de que nos acostumamos de tal maneira em ver pessoas abandonadas, humilhadas e esmagadas por outros humanos que deixamos secar, aos poucos, a escassa indignação e empatia que ainda sobrevivem em nós. Achamos mais conveniente aderir à lógica diabólica da ‘religião’ e ‘orar’ pelos doentes e aflitos, em lugar de assisti-los e defendê-los em seus direitos e dignidade. No evangelho de hoje Jesus deixa claro que os seus discípulos, se quiserem ser missionários autênticos da ‘Realeza do Pai’, devem abandonar a indiferença e a apatia. Devem rechaçar os vícios dos devotos hipócritas do templo e de seus preceitos de 'pureza litúrgica' que impedem a aproximação com 'as pessoas impuras'. Devem se deixar educar, definitivamente, pela indignação e pela ternura compassiva. Só assim poderemos sarar as feridas abertas e infectadas do egoísmo e da indiferença, purificar a lepra da intolerância e do racismo, e expulsar os demônios do medo, da dependência e da manipulação. 


domingo, 7 de junho de 2026

10°domingo comum - CHEGA DE SACRIFÍCIOS E RITOS, QUERO AMOR E COMPAIXÃO!

Pela nossa formação catequética e religiosa, um tanto distorcida, temos dificuldade de encarar a nossa relação com Deus de acordo com o modo vivenciado por Jesus. Muitos continuam a imaginar que temos um Deus que exige louvores, súplicas, promessas, sacrifícios, cumprimento rigoroso de ritos e liturgias que, afinal, nós mesmos criamos. Imaginamos que tudo isso é necessário para conquistar a Sua benevolência, e obter, em troca, favores e graças. É uma clara relação mercantilista, uma tentativa de cooptação e de manipulação de um suposto 'deus' que nós mesmos criamos para nós! E pagamos as consequências disso tudo: sentimentos de culpa, escrupulosidade litúrgica, misticismos e ritualismos desencarnados e ausência de obrigações éticas e morais para com as pessoas. Afinal, imaginamos que é o 'deus' ao qual nos dirigimos que nos dá tudo, o bem e o mal! Jesus nos prova que o nosso compromisso real é com as pessoas, filhos e filhas de um Pai que se preocupa exclusivamente com eles. O Deus de Jesus não quer nada para si, Ele já tem tudo, não precisa ser convencido de nada, Ele nos protege e ama com ou sem súplicas, orações e sacrifícios. Com isso, o Deus de Jesus nos desvia da religião bitolada e carola para assumirmos o verdadeiro compromisso de fé que faz sentido: amar os nossos semelhantes, compadecer-se do humilhado e do excluído. Sim, aqueles que com os nossos critérios religiosos  julgamos impuros e indignos. O Deus de Jesus quer amor, não alienação religiosa!

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Solenidade do Corpo e Sangue de Jesus - Servir, defender e proteger corpos desfigurados, sacrários do amor do Pai!

Nós não temos corpo, nós somos corpo! É através dele que entramos em sintonia com as pessoas na sua integralidade e com a própria transcendência. Sem o corpo não existiria nem amor nem compaixão, nem solidariedade e nem caridade. Celebrar a solenidade do Corpo e do Sangue de Jesus é mergulhar na plenitude da Sua humanidade: identificar-se com sua sensibilidade, sua empatia e, também, com sua capacidade de ‘sair do seu corpo’ para cuidar de outros corpos, feridos, perseguidos, torturados, escravizados, famintos e violentados. Escandalizamo-nos quando existe uma profanação da ‘hóstia consagrada’, mas permanecemos indiferentes quando o corpo de um filho de Deus, que é o verdadeiro templo e sacrário do Pai, é linchado e desfigurado. Revoltamo-nos com quem não se ajoelha para adorar e venerar a ‘hóstia santa’ num ostensório dourado, mas somos incapazes de nos ajoelhar para lavar os pés dos nossos irmãos como Jesus fez. Afinal, nunca passou pela cabeça de Jesus de exigir reverência e adoração ao seu ‘corpo’, - algo fácil de se fazer, - mas, ao contrário, Jesus colocou toda a sua corporeidade a serviço daqueles corpos desfigurados pelo egoísmo e pelo ódio. Fez do seu corpo o alimento para saciar a fome e sede de respeito e de amor de quem não se alimenta de poder, de dinheiro, de prestígio, de alienação.


Corpus Christi: é mais cômodo adorar a Jesus que segui-lo - por padre Adroaldo Palaoro

 Celebramos o “Corpus Christi”, uma das festas mais ricas por seu conteúdo e simbolismo, mas que nos faz pensar também no “Corpo de Cristo” no meio de tantos outros corpos. Aceitamos, pela fé, a presença real de Cristo na Eucaristia; isso implica comunhão bem maior com sua vida, seu testemunho de amor, de partilha, solidariedade, dedicação pela transformação de tudo aquilo que não dignifica a vida ou não dignifica os “corpos”. Comungamos o “Corpo de Cristo” para podermos viver o seguimento com mais radicalidade. Infelizmente, o que temos observado é que grande parte dos cristãos não seguem uma Pessoa (Jesus Cristo), mas se limitam a cumprir alguns ritos, leis, práticas devocionais e piedosas... que revelam uma espiritualidade intimista, alienante e distante do compromisso com os outros. Participamos, com muita fé, dedicação e respeito, das celebrações do “Corpo de Cristo”, mas pode ser que, às vezes, façamos uma profunda cisão ou ruptura entre o que celebramos e a realidade que nos cerca, ou seja, o compromisso com os “corpos” explorados, manipulados, usados, escravizados...

Pode ser que, às vezes, tenhamos um profundo amor e respeito ao “Corpo de Cristo vivo e presente na Eucaristia”, e não O vejamos nos “corpos” que estão aí, aqui, ali, lá, por todos os lados...Certamente, nunca passou pela cabeça de Jesus pedir que os seus(suas) seguidores(as) se pusessem de joelhos diante d’Ele. Ele, sim, se ajoelhou diante de seus discípulos para lhes lavar os pés; e, ao terminar essa tarefa de servos, lhes disse: “Se eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros”. Essa lição, ousada e provocativa, parece que nunca nos interessou. É mais cômodo transformá-Lo em objeto de adoração do que segui-Lo no serviço, na disponibilidade e na entrega aos demais. Todas as demonstrações de respeito e veneração diante do Corpo de Cristo tem seu sentido e significado. Mas, ajoelhar-nos diante do Santíssimo Sacramento e continuar menosprezando ou ignorando o próximo, é uma ofensa. Se, em nossa vida, não deixamos transparecer a atitude de Jesus, todos os gestos de adoração continuarão sendo “magia barata” para tranquilizar nossas consciências. É preciso descobrir a presença de Jesus em todos os corpos desfigurados, famintos, violentados, desprezados..., e que suplicam por uma presença servidora e solidária. Diante destes corpos desumanizados, morada do Ressuscitado, é que devemos nos ajoelhar para facilitar a ajuda e o serviço. Ninguém pode servir a partir de uma posição elevada; é preciso “descer”, esvaziar-nos de nosso ego prepotente, para prolongar as mãos e o coração do Compassivo.

 “Corpus Christi” nos fala, portanto, da “Encarnação continuada”, ou seja, Deus não só se “encarna”, Ele é Encarnação. A Encarnação não é um ato pontual, ou um evento isolado da história, mas uma atitude eterna de Deus. Toda a Criação e toda a Humanidade foram assumidas por este “mistério” fundante de nossa fé. Assim, toda a história humana se faz História da Salvação. E o “assim novamente encarnado” (S. Inácio) se visibiliza em todos os “corpos” humanos. “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40) Ao comungar o “Corpo de Jesus”, nosso corpo e todo nosso ser tocam algo do mistério da Encarnação. A comunhão é – ou deveria ser – uma sacudida pessoal e comunitária que nos impulsiona a retomar o projeto vital de Jesus, do qual nos afastamos continuamente. 

Na Eucaristia se concentra toda a mensagem de Jesus, que é o Amor. O Amor que é Deus manifestado no dom de si mesmo e que Jesus deixou transparecer durante sua vida. Ao dizer, “isto é o meu corpo”, Jesus está afirmando: Isto sou eu: Dom total, Amor total, sem limites. Ao comer o pão e beber o vinho consagrados, queremos afirmar: fazemos nossa a Sua vida e nos comprometemos a nos identificar com o que foi e fez Jesus. O pão que nos dá a Vida não é apenas o pão que comemos, mas o pão no qual nos transformamos, quando fazemos de nossa vida uma doação contínua. Somos cristãos, não só quando comemos o pão, mas quando nos deixamos consumir, como Ele fez.

Discípulos(as) de Jesus somos quando aprendemos a partir o pão. Reconhecemos os cristãos hoje quando partem o pão e não o retém para si. O pão armazenado, como o maná no deserto, se corrompe, apodrece. Compartilhar significa não “monopolizar”, não permitir que haja necessitados entre nós. O pão partido é a vida compartilhada: bens, dons, tempo, qualidades...O cristão, além disso, compartilha seus ideais, seu entusiasmo, seu ânimo, sua fé, sua esperança. Também hoje Jesus precisa de nossas mãos para multiplicar os grãos; precisa de nossas mãos para triturar esses grãos, amassar a farinha e fazer o pão. E precisa de nosso coração para que o pão seja repartido. O pão sem coração é pão “monopolizado”. Pão indigesto, que engorda o egoísmo. O pão sem coração gera divisões e conflitos. Quantas guerras fraticidas provoca o pão sem coração!

 Deus precisa de nosso coração para que o pão leve o sinal da fraternidade, seja vitamina de solidariedade, alimento de comunhão, energia de vida. Por fim, é preciso enfatizar que, celebrar e venerar o “Corpo de Cristo” nos remete ao nosso corpo e ao corpo dos outros. Nossos corpos estão integrados e dignificados no Grande Corpo Cósmico d’Aquele que se esvaziou dos atributos divinos para se fazer “Corpo” e “divinizar” nossos corpos. Integrados ao “Corpo do Ressuscitado” somos chamados a superar toda suspeita, medo, julgamentos moralistas e visões dualistas dos nossos corpos. Afinal, não “temos” corpo, “somos corpo”; pensamos, amamos, sentimos e entramos em relação com o Transcendente através de nosso corpo. Enchemo-nos de assombro diante do mistério que é cada corpo. Nossos esquemas e dualismos de matéria-espírito, espaço-tempo, passado-futuro, longe-perto, parecem diluir-se. Todo corpo está “animado” e toda “alma” está sempre “corporificada”. No encontro com o “Corpo de Cristo” passamos a ter uma outra visão de nosso corpo; isso implica superar a parcialização, a polarização e a dicotomia e buscar a harmonia e a integração. Somos nosso corpo animado, com vida e com sentido. Construímos nossa vida com nosso corpo e graças a ele. Com, em e pelo corpo, vivemos nossa história, caminhamos pela vida na contínua aventura de crescimento e de maturação, de amor e de conhecimento, de encontro com os outros e conosco mesmo, com nossos desejos e medos, nossas alegrias e dores, nossas esperanças e desesperos, nossas vitórias e desilusões ... Tudo isso está inscrito em nossa “carne”.

 

Nosso ser profundo, nosso ser essencial se manifesta, se abre para fora através de nosso corpo. O corpo deixa transparecer o que há de mais humano e mais divino em seu interior.

Deixemos “transparecer” o “Corpo de Cristo” em nossos corpos!

 

sábado, 30 de maio de 2026

SOLENIDADE DA TRINDADE SANTA - CRER NO DEUS-PAI DE JESUS, E REJEITANDO OS ÍDOLOS

Desconfiemos daqueles ‘devotos’ que, com frequência, colocam o nome de Deus em seus lábios! Que com petulância citam e invocam o Seu Santo nome, mas é para ocultar e justificar seus sórdidos projetos de manipulação e de dominação. Que gritam, com empáfia, em alto e bom som, que ‘Deus está acima de tudo e de todos’, mas não dizem que o ‘deus’ em que, supostamente, acreditam é, na realidade, um ‘ídolo’ que eles mesmos criaram para si. Um ídolo moldado à sua imagem e semelhança, utilizado de acordo com seus interesses e conveniências. No fundo, por trás de ‘tamanha devoção’ se escondem verdadeiros idólatras! A solenidade da Trindade Santa vem para nos lembrar o que ‘Deus’ jamais poderá ser, e o que Ele deveria ser para quem faz a opção de seguir radicalmente Jesus de Nazaré. Se é verdade que ninguém viu Deus, e, portanto, Ele não pode ser descrito e nem definido, também é verdade que, a partir de Jesus de Nazaré, Deus pode ser sentido e experimentado como Pai. Como uma fonte inesgotável de amor, de compaixão e de ternura para com seus filhos e filhas. Um Deus-Pai-Mãe incapaz de condenar, de ameaçar, de chantagear e de punir, e que nos educa para agirmos da mesma forma. Só quem faz a experiência de acolher e amar os filhos de Deus é que pode acreditar, de fato, no Deus-Pai de Jesus. Fora isso, só charlatanice!


sexta-feira, 29 de maio de 2026

MPF pede medidas urgentes para proteger terras indígenas Kanela no Maranhão

 

A ação foi movida contra a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a União, o estado do Maranhão e o município de Fernando Falcão. Segundo o MPF, houve falhas do poder público na proteção territorial e ambiental das comunidades indígenas. As investigações começaram em 2023, após denúncias encaminhadas pelo Conselho Indigenista Missionário no Maranhão (Cimi-MA) sobre crimes cometidos na região. Em caráter de urgência, o MPF pede que os órgãos responsáveis apresentem, em até 30 dias úteis, um plano emergencial provisório para proteger as terras indígenas Porquinhos e Kanela. O documento deve informar as ações que serão adotadas, o cronograma de execução e os mecanismos de monitoramento. O órgão também pediu que o estado do Maranhão suspenda imediatamente licenças e autorizações concedidas para atividades agrossilvipastoris na Terra Indígena Porquinhos, ou comprove o cancelamento desses atos. 

De acordo com as investigações, indígenas têm sido ameaçados por madeireiros e pela extração ilegal de madeira. Roças da comunidade também teriam sido incendiadas, e o fogo chegou a atingir casas dentro da aldeia enquanto moradores participavam de uma festa cultural na Aldeia Escalvado. As apurações apontam ainda aumento da presença de fazendeiros, madeireiros e pessoas não indígenas na região, além do avanço do desmatamento ilegal, da destruição do cerrado e da exploração das florestas. Segundo o MPF, a Terra Indígena Porquinhos esteve entre as terras indígenas mais desmatadas do país em 2023. Relatórios citados na ação também indicam problemas em licenças ambientais emitidas no entorno das terras indígenas. Ainda segundo o MPF, cerca de 12 fazendas ocupam, total ou parcialmente, áreas reivindicadas pelos indígenas, sem consulta prévia às comunidades. A procuradora da República Anne Caroline Aguiar afirmou que a situação representa um processo contínuo de violação de direitos. “Tais circunstâncias evidenciam que não se trata de danos pontuais ou isolados, mas de um processo contínuo de erosão dos direitos fundamentais das comunidades indígenas, com impacto direto sobre sua reprodução física, cultural e espiritual”, disse. A Terra Indígena Kanela já é oficialmente reconhecida pela União. Já a Terra Indígena Porquinhos tem uma área demarcada, mas os indígenas reivindicam a ampliação do território tradicionalmente ocupado. Esse processo ainda não foi concluído. Um diagnóstico técnico feito em 2022 pelo Centro de Trabalho Indigenista apontou avanço da soja, desmatamento do cerrado, uso frequente de agrotóxicos, contaminação ambiental, redução da fauna, impactos nos rios e abertura de estradas ilegais nas terras indígenas Porquinhos e Kanela. 

Ao final da ação, o MPF pede a criação de uma instância permanente de articulação entre os órgãos públicos e os povos indígenas para coordenar a proteção das terras indígenas. O órgão também requer que União e Funai adotem medidas permanentes de proteção territorial, com plano de contingência, monitoramento contínuo, retirada de invasores e reforço na fiscalização. Em relação ao estado do Maranhão, o pedido inclui o cancelamento e a suspensão de licenças ambientais consideradas irregulares, reforço da segurança pública e medidas preventivas no entorno das terras indígenas. O município de Fernando Falcão deve participar das ações de proteção e não autorizar intervenções que afetem os territórios indígenas. Já o Ibama deve intensificar a fiscalização ambiental e adotar medidas imediatas contra infrações (G1)