sexta-feira, 30 de outubro de 2026

SOLENNITÁ DI TUTTI I SANTI, DI IERI E DI OGGI

SANTO sei tu, oggi, che hai saputo educare il tuo cuore all'empatia e alla compassione, liberandolo da ogni arroganza e indifferenza, e lo hai trasformato in un rifugio sempre attento e aperto a tante persone povere e dimenticate in questo mondo. Per questo possiamo proclamare:

SANTI siete voi che, dopo aver versato tante lacrime di dolore, offrite la vostra spalla a tante persone sconsolate e afflitte affinché trovino consolazione e comprensione. SANTI siete voi che non vi lasciate sedurre dall'idolatria alla sfrontatezza degli arroganti di questa terra e credete nel potere trasformativo della mitezza. SANTI siete voi che non vi sentite mai sazi e combattete la vostra fame e sete lottando contro i produttori di ingiustizia, di disuguaglianza e di fame di pane. SANTI siete voi che consapevoli della vostra fragilità non giudicate chi sbaglia, ma nel perdono offrite loro un' ennesima opportunitá di conversione. SANTI siete voi che detestate travestimenti e maschere, che non aderite alle pratiche degli ipocriti, dei bugiardi e degli adulatori. Nei vostri cuori umili e puri, scoprite che il Padre si rivela nella verità e nella trasparenza. SANTI siete voi, oggi, che pur non avendo il vostro nome stampato in un calendario o venerato in un santuario, continuate, anonimamente, a "compiere miracoli" di caritá e solidarietà con i perseguitati e i calunniati per causa della giustizia, e non vi stancate mai di credere che il "Regno del Padre" è già iniziato, grazie a voi! Credete: il vostro nome è già stato scritto in lettere indelebili nel libro della VITA!

  

Lula venceu e Flávio Bolsonaro fugiu. Artigo de Valerio Arcary

 Lula venceu e Flávio Bolsonaro fugiu. A história acelerou, abruptamente. Nada será como antes. A virada era difícil, e até improvável, mas se confirmou, mais uma vez, que nada é impossível quando a classe trabalhadora se coloca em movimento, inspirando a maioria dos oprimidos, como nas Diretas Já, em 1984, e em 1992 na campanha Fora Collor.

Não foi somente uma campanha eleitoral, embora tudo dependesse do desfecho nas urnas. Aconteceu um levante cívico-eleitoral democrático com impulso revolucionário. Talvez uma forma de “revolução democrática” do século XXI, diante da ameaça fascista. A surpresa do desfecho do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula, e o perigo real e imediato da extrema-direita conquistar um “poder total” nas instituições, foi o gatilho que disparou um alerta geral. O que teria acontecido, se Lula tivesse chegado em primeiro lugar? Não podemos saber. Milhões de pessoas, até então, politicamente inativas teriam despertado para uma militância febril e arrebatadora? Os estudantes teriam saído das universidades para ser a faísca que arrastou mulheres e homens, de distintas gerações, para um ativismo frenético nas ruas e redes? Mas não foi somente o medo. O medo somente não mobiliza. Somente o medo conduz ao desespero. A outra força motriz do ascenso, tão ou mais importante, foi a confiança que era possível vencer. O nome desta fé é a esperança. Em 2018, tivemos o momento tragédia com a eleição de Bolsonaro pai. Em 2026, o momento comédia com a fuga em pânico de Bolsonaro filho.

O que é certo e mais importante é que ficou demonstrado, de forma irrefutável, a força social de choque da classe trabalhadora brasileira, o maior proletariado da América Latina. O Brasil viveu, nas três semanas antes do segundo turno das eleições presidenciais, uma experiência rara, avassaladora e inusitada de mobilização política de massas. A vitória eleitoral de Lula no domingo 25 de outubro é incomparável e não tem precedentes. A virada teve um “empurrão revolucionário”, algo novo, e foi garantida pelo engajamento de uma vanguarda de milhões. O empoderamento da irrupção de massas em uma onda vermelha que ocupou as ruas e tomou as redes sociais foi uma “escola”. As pessoas descobriram que, quando se unem na luta, têm uma força de impacto que é arrasadora. Da Avenida Paulista à praia de Copacabana, de Porto Alegre a Belém, de Salvador a Brasília, de Belo Horizonte a Recife, de Curitiba a Fortaleza, por todas as capitais, mas também em cidade médias e mesmo pequenas, ocorreram as maiores manifestações da história.

Foram atos de esquerda, de uma esquerda que é diversa e plural, em que se ovacionava Lula. A avalanche mudou a relação social e política de forças: estivemos durante dez anos em uma situação reacionária e defensiva. As “placas tectônicas” da estrutura da sociedade se moveram. Estamos agora em ofensiva, e abriu-se uma situação transitória. Mas nada está garantido de antemão. Tudo está em disputa. Vai depender, sobretudo de dois fatores:

(i) da capacidade de iniciativa, da ousadia e determinação do governo Lula;

(ii) da manutenção da disposição de luta popular. A “onda vermelha’ pode morrer na praia.

A construção de uma segunda “onda” será, portanto, o desafio estratégico.

A extrema direita sofreu a maior derrota de sempre e está agora, transitoriamente, acéfala. Mas vai se reorganizar. Além do apoio da Casa Branca tem posições institucionais nos governos estaduais e no Congresso mais fortes do que antes. Se as massas recuarem, pelas mais diversas razões, pode se estabilizar uma situação de impasse na luta de classes. Se mantiverem a confiança de que é necessário ir além pode se abrir uma dinâmica de radicalização pré-revolucionária. Tanto a evolução do governo, se irá avançar ou pactuar, como a evolução da força das ruas, se irá se manter, e crescer para novas formas de democracia direta e auto-organização, mais “leves e rápidas”, embriões de poder popular ou não, definirão nosso destino.

Aprender com a experiência da “onda vermelha” será crucial para o futuro da esquerda. Este é uma daqueles momentos em que devemos recorrer ao bom método do “empirismo leninista”. Isso significa estudar, minuciosa e pacientemente, o que aconteceu, porque foi inesperado e inédito, surpreendente e colossal. Nada foi tão decisivo como o impulso de luta ininterrupta e permanente, todos os dias.

 

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS E SANTAS DE HOJE E DE ONTEM

SANTO é você, hoje, que sabe educar o seu coração à empatia e à compaixão, livrando-o de toda arrogância e indiferença, e que o mantém como abrigo sempre atento e aberto para tantos pobres e esquecidos desse mundo. Por isso podemos proclamar:

SANTOS são vocês que, após terem derramado tantas lágrimas de dor, disponibilizam seu ombro para tantos aflitos encontrarem consolo e compreensão. SANTOS são vocês que não se deixam seduzir pela idolatria à truculência dos prepotentes desta terra, e acreditam na força transformadora da mansidão. SANTOS são vocês que nunca se sentem saciados, e combatem sua fome e sede lutando contra e os produtores das injustiças, das desigualdades e da fome de pão. SANTOS são vocês que têm consciência de sua própria fragilidade e não julgam os que erram, mas no perdão lhes oferem uma inédita chance de conversão. SANTOS são vocês que detestam disfarces e máscaras, que não aderem à prática dos hipócritas, dos mentirosos e dos bajuladores. No seu coração sem subterfúgios e límpido descobrem que o Pai se revela na verdade e na transparência. SANTOS são vocês, hoje, que, mesmo não tendo o seu nome impresso num calendário ou venerado num santuário, continuam, anonimamente, a ‘operar os milagres’ da caridade e da solidariedade para com os perseguidos e os caluniados por causa da justiça, e não cansam de acreditar que o ‘Reinado do Pai’ já começou! Acreditem: o seu nome já está escrito com caracteres indeléveis no livro da VIDA!

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

XXX Domingo Comum - Não maltratem o 'estrangeiro'! Vocês se esquecem o quanto dói ser ignorado e excluído?

Após a segunda guerra mundial, meu pai com outros jovens deixaram o nosso povoado à procura de trabalho nas minas de carvão mineral, na França. Naquele frio subsolo respiravam pó de carvão, medo e preconceito. Mamãe fez o mesmo caminho com outras jovens, mas na Suissa, trabalhando como mulher de limpeza, num hotel. Todos eles sentiram na alma o que significou ‘ser estrangeiros’. Às vezes, tem-se a impressão de que as ‘nossas’ segunda e terceira geração olvidaram que nossos pais e avôs fizeram a indelével experiência de serem ‘oprimidos e maltratados’ em terra estrangeira, e reservam aos estrangeiros de hoje, em nossa própria terra, a mesma xenofobia que os nossos antepassados sofreram outrora. Em muitos casos, numa irracional generalização, os estrangeiros são considerados invasores, responsáveis pela violência, pela crise econômica, pela intolerância e pelo desmantelo cultural atual, tal como ocorria na época do Êxodo e do Israel de Jesus. É o próprio Mestre que no evangelho de hoje nos diz que é preciso interromper essa lógica. É preciso amar o nosso próximo, unilateralmente, sem exigir reciprocidade. Amar não somente o parente biológico ou o membro da mesma igreja, ou nação, mas quem ‘convive ao nosso lado’, que trabalha, chora e sonha conosco, independentemente de sua origem, opção sexual, etnia e religião. O amor e não o ódio, a compaixão e não a intolerância, têm o poder de nos transformar em seres que aprendem a amar como o Pai ama seus filhos. Afinal, é amando os filhos de Deus Pai que amamos Ele, diretamente!


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Como podemos acabar com a tirania do presente na política? Entrevista com Pierre Rosanvallon

 

Em ‘A tirania do presente’, você constata que nossas sociedades deixaram de se preocupar com o longo prazo e as gerações futuras. Quando isso começou?

Podemos fazer retroceder essa desconexão à modernidade. A modernidade representa a ruptura do mundo dos direitos, da subjetividade e da humanidade. E essas rupturas ocorreram ao nos libertarmos das amarras do passado e das promessas do futuro incorporadas por religiões que antes ensinavam o sacrifício do presente. Os ritmos políticos e o próprio conceito de coesão social mudaram. Porque se os indivíduos se tornarem senhores do seu próprio futuro, poderão remodelá-lo. Substituímos as instituições imutáveis e herdadas por instituições que podem ser perpetuamente questionadas.

Será que a própria estrutura do nosso sistema político complica a nossa relação com o longo prazo?

A democracia é um regime do presente, e é crucial que assim permaneça, mas deve obedecer a vários ritmos: o das instituições, o da vontade geral, o da lei… Mas a vontade geral não pode ser reduzida simplesmente ao “capricho do momento” ao qual as eleições parecem estar sujeitas. Uma nação tem uma existência que faz parte de um contínuo, portanto, são necessários guardiões dessa continuidade.

Para conciliar urgência e longo prazo, o senhor nos convida em seu livro a examinar nossa condição de terranos, além da de indivíduos e cidadãos. O que esse novo rótulo permitiria?

Os procedimentos institucionais para estabelecer o longo prazo são essenciais, mas não são suficientes. Os indivíduos também precisam ter internalizado essa prática de planejamento futuro. Porque você pode tomar todas as decisões que quiser sobre os comportamentos a serem adotados para reduzir o consumo de energia, por exemplo, mesmo assim os resultados serão extremamente ruins se eles não forem internalizados pelos cidadãos. Na democracia, as decisões institucionais e o comportamento individual devem estar alinhados. Em regimes totalitários, onde o conceito de indivíduo não existe, o problema não se coloca – a vontade da China torna-se a vontade do povo chinês, porque este é forçado a conformar-se; não há diálogo social. Mas, em uma democracia, esse alinhamento é essencial.

E como criamos as condições para esse alinhamento?

O mundo moderno era inicialmente um mundo do indivíduo. O que permitiu que o conceito de cidadão se consolidasse foi o fato de ter emergido gradualmente como uma forma de proteção. Isso não aconteceu de forma repentina. Se deu devido a guerras, lutas de classes e muitas outras provações que demonstraram a importância dessa segunda dimensão.

Você cita Cynthia Fleury na introdução, que essencialmente escreve que, enquanto não “batermos no muro”, não seremos capazes de nos “colocar a caminho”. Pode-se pensar que, entre o retorno da guerra à Europa, a pandemia de Covid-19 e verões que chegam a 42°C, já fomos lançados à realidade em velocidade vertiginosa. E, no entanto, nada parece realmente mudar…

Edgar Morin disse algo semelhante: o “nós” prevalece sobre o “eu” quando enfrentamos uma provação terrível. Mas os eventos atuais mostram que essa narrativa do muro não é totalmente precisa. Não acredito em um caminho de Damasco para as mudanças climáticas, na lógica da conversão pela brutalidade dos acontecimentos.

É por isso que estou desenvolvendo o conceito de exercícios democráticos. Precisamos implementar experimentos, como um “parlamento das gerações”, que poderia ser modelado a partir de convenções cidadãs e nos permitiria abordar diretamente a questão da justiça intergeracional e compartilhar o conhecimento. As teorias da justiça (que são teorias da distribuição) são geralmente concebidas em termos de ricos contra pobres. Essa questão deve ser ampliada para as relações entre gerações. Refletir sobre o que constitui a justiça entre gerações também poderia ter a vantagem de atrair as gerações mais jovens de volta à política. Porque, atualmente, os eleitores mais assíduos são também os mais idosos. Enquanto se poderia pensar que deveria ser o contrário: ao completar 18 anos hoje, você terá que viver a vida inteira com as decisões tomadas pelos governos.

Que mandato exato daríamos a esses “parlamentos das gerações”?

Precisamos de assembleias permanentes das gerações futuras que desenvolvam uma abordagem mais ponderada para o futuro, que permitam a coexistência de vozes divergentes. Mas essas experiências não devem se tornar instituições. As instituições diminuem o ritmo, acalmam as mentes, mas elas devem permanecer despertas.

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

XXIX domingo comum - AOS IMPERADORES DE HOJE SÓ DEVOLVEMOS SEUS AMULETOS, A DEUS PAI DEVEMOS O COMPROMISSO DE PROTEGER QUEM FOI CRIADO À SUA IMAGEM!

A humanidade parece viver um verdadeiro paradoxo, planetário, trágico e, aparentemente, irreversível. Parece que quanto mais a sociedade avança desde um ponto de vista tecnológico, mais ela involui na sua consciência social, organizacional, política. Tem-se a impressão que estamos voltando a cultuar caudilhos, imperadores civis, líderes políticos como se fossem verdadeiros pais-patrões salvadores de uma nação que, incontestavelmente, se submete às suas autocráticas vontades. Jesus, na notória diatribe sobre a licitude ou não de pagar imposto a César coloca algumas orientações e questões centrais que continuam atuais. Aos imperadores de ontem e de hoje é preciso devolver as efígies e os símbolos que eles próprios forjaram, no intuito de perpetuar o seu suposto sagrado poderio. A eles não devemos nada! Só se devolve um desgastado objeto de metal, uma moeda de ferro que representa a sua deformada cara de falso senhor do mundo!  Agora, ao verdadeiro Senhor que não submete e nem escraviza, que não ameaça e nem persegue devemos tudo o que nós temos e somos. Ao Deus que criou o ser vivo à sua ‘imagem’ e semelhança temos a obrigação de cuidar, proteger e salvar os seus filhos e filhas. Afinal, é neles que Deus ‘cunhou’ a sua cara’! Ao protegermos esses templos vivos, reflexos indeformáveis do Pai, e vítimas dos donos das moedas virtuais de hoje, estaremos prestando o único e verdadeiro culto que é agradável ao Deus de Jesus de Nazaré!


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

XXVIII Domingo Comum - QUEM ACEITA PARTICIPAR DO BANQUETE DO PAI NÃO PODE FICAR DO LADO DE QUEM EXCLUI DO BANQUETE!

Há oportunidades que aparecem na nossa vida que são únicas. Existem convites específicos a nós dirigidos que devem ser acolhidos no instante, pois nunca mais voltarão. Ocorre que estamos tão obtusamente fixados no que conhecemos e experimentamos de forma rasteira que não percebemos tudo isso como ‘momentos inéditos de graça’ que poderiam mudar qualitativamente a nossa existência. Só com o tempo é que constatamos, com tristeza, o que perdemos. O evangelho de hoje nos alerta sobre duas coisas. 1. Os convites a entrarmos numa nova lógica e prática de vida que as circunstâncias do cotidiano nos oferecem, ao serem ignorados e desprezados por nós, serão aproveitados, inexoravelmente, por outras pessoas. Depois disso, não cabe nem inveja e nem ressentimento. 2.Ao compreendermos, porém, a importância única de aceitarmos o convite a entrar na nova lógica da Realeza do Pai, com atitudes e valores bem específicos e bem diferentes daqueles que o anti-reino oferece, faz-se necessário "vestir a camisa'. Ou seja, é imprescindível assumir radical e definitivamente aquele compromisso-missão de construir o novo jeito de ser e viver inaugurado por Jesus. Aceitar o convite para o banquete do reino e não vestir-incorporar a sua lógica de fraternidade, de comunhão, de justiça, produzirá a nossa própria autoexclusão. Afirmar ser discípulo de Jesus e apoiar os representantes do anti-reino que excluem e perseguem é sinal que nunca vestimos, de fato, a camisa do Reino do Pai!


sábado, 3 de outubro de 2026

XXVII domingo comum - QUEM NÃO ADMINISTRA COM JUSTIÇA E COMPETÊNCIA A VINHA DO SENHOR SERÁ DEMITIDO E SUBSTITUÍDO!

Muitos ainda acreditam que a política, seja ela partidária ou não, nada tem a ver com a espiritualidade e a fé dos cristãos. Para eles seriam duas dimensões separadas da mesma pessoa. Acham que no âmbito da política o cidadão-cristão tem autonomia para escolher, decidir, atuar, de acordo com uma determinada ética, e na esfera da fé, vigoraria outra ética, totalmente contrária à primeira, a evangélica. É a favor da pena de morte na rua, mas na igreja defende a vida. Impõe e aguenta ritmos de trabalho absurdos para trabalhador pobre, mas na igreja fala contra a escravidão e a exploração do povo. Da mesma forma, na praça defende o administrador violento e autoritário, corrupto e golpista, mas na igreja apresenta Jesus como o servidor de todos e príncipe da paz. Essas posturas têm nome: esquizofrenia, dissociação cognitiva ou, na melhor das hipóteses, hipocrisia escrachada. No evangelho de hoje Jesus deixa claro que para quem não sabe administrar no respeito e na justiça a ‘vinha do Senhor’ está destinado ao fracasso, à falência, à destruição.  Mais cedo ou mais tarde as contas chegam e, naturalmente, os administradores da vinha, incompetentes, corruptos, violentos, serão substituídos por um ‘novo povo, com uma nova consciência e prática’ que, fatalmente, tomarão de conta da ‘renovada vinha do Senhor’. Afinal, só quem sabe de ser ramo enxertado na videira que é Jesus, pode dar frutos e produzir um novo jeito de sermos sociedade e igreja, cidadão e cristão simultaneamente.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Perdidos num labirinto sem saída

Repete-se ad nauseam que vivemos ‘tempos estranhos’, e não sem razões. Poder-se-ia dizer, contudo, que sempre houve épocas em que até para uma minguada minoria de sábios nunca foi fácil decifrar o conjunto de acontecimentos em que as sociedades se encontravam mergulhadas. Algo paradoxal: afinal, aqueles setores de uma determinada sociedade que eram considerados os atores e os protagonistas de determinados acontecimentos que acabavam condicionando a totalidade da sociedade, eram também eles, por sua vez, simultaneamente, catapultados nas consequências-resultados que de lá emergiam, de forma confusa e indecifrável. Em outras palavras, parece que em determinados períodos históricos uma determinada sociedade acaba se descobrindo perdida, desnorteada, percorrendo sinuosas e obscuras vias onde parece não mais existirem saídas e nem entradas, pois uma pode ser confundida com a outra, e o suposto ponto de saída é confundido com o ponto anterior. Tem-se a impressão, hoje, de sermos tantas pequenas cobaias que correm apressada e loucamente num labirinto autoprojetado onde perdemos o mapa-projeto original que indica a única saída principal, sob pena de correr à toa e de permanecermos, paradoxalmente, num mesmo ou similar lugar.

Imaginemos, por um instante a ansiedade e o progressivo desespero que começam a tomar de conta daquelas criaturas enjauladas naquele labirinto em que, após inúmeras tentativas, não acham a única saída salvadora para todos. Começam a crescer os níveis de agressividade de uns contra outros em que se esvai, rapidamente, a lucidez necessária para parar, se reorganizar, memorizar caminhos já percorridos, colocar sinalizações para tanto para evitar correr em vão como baratas tontas. O absurdo é que é isso mesmo que aquelas cobaias acabaram se tornando: seres atordoados, dominados pelo medo e o desespero, com mentes entorpecidas, incapazes de repensar suas estratégias de saída. Haverá uma delas que, afinal, assumirá com a força e com a sua capacidade de persuasão ilusória a condução da totalidade das cobaias, sob a promessa de conduzi-las para uma saída definitiva que, de fato, não existe. Levará as poucas cobaias que ainda sobrevivem, após sangrentas lutas fratricidas, a se submeterem e a seguir a líder que, fatalmente, recomeçará a percorrer mais caminhos, já percorridos, mas que já não consegue mais reconhecer. É a perdição e a inanição que precedem a autodestruição.

 


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

XXVI domingo comum - CHEGA DE BLÁ BLÁ BLÁ, É PRECISO PÔR EM PRÁTICA O PLANO DO PAI!

Participamos de uma época cultural e social em que a palavra dada parece definitivamente banalizada. Muitos desconfiam daquelas pessoas que chegam até a registrar a própria palavra-promessa em cartório como suposta garantia de que irão cumpri-la. Há uma inegável esquizofrenia entre as afirmações verbais e a sua realização concreta, entre o prometer, formalmente, e o seu cumprimento. O mais paradoxal, contudo, é que essa contradição se naturalizou de tal maneira que poucos se escandalizam e se indignam. Jesus, no evangelho hodierno, deixa claro que não se deixa comover pela solenes e formais manifestações de devoção e de piedade, a não ser que elas sejam ladeadas por gestos concretos de compaixão e de justiça. Já em outras ocasiões o Mestre alertava os seus seguidores de que não é aquele que diz ‘Senhor, Senhor’ que vai compreender, acolher e entrar na lógica e na prática do Reino, mas aquele que, sem muitas falas, cumpre o plano do Pai! Ao agir dessa forma, Jesus desmascara a vergonhosa hipocrisia dos fariseus de ontem e de hoje que enchem a própria boca de fórmulas devocionais, mas despejam uma baba nojenta de moralismos e de condenações baratas, misturada com manifestações de ódio, de intolerância, de racismo, de corrupção e de violência. Jesus prefere um seguidor que, embora aparentemente refratário ao projeto do Pai, acaba, afinal, aderindo a ele, a todos aqueles falsos seguidores que se inflamam de ardor litúrgico e celebrativo, mas que não realizam, de fato, a vontade do Pai. Daí que o Mestre sentencia que os supostos e presunçosos 'devotos santinhos' serão precedidos no Reino por aqueles ‘desviados’ que eles sempre condenaram e demonizaram.


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

FIM DA AUSTERIDADE NO VATICANO, MAS SÓ PARA OS CARDEAIS!

 Em março de 2021, o Papa Francisco, enfrentando um déficit no Vaticano "agravado" pela pandemia e, buscando evitar demissões, - inclusive porque o Vaticano não dispõe de medidas de proteção social para quem perde o emprego - decidiu cortar os salários dos níveis mais altos: uma redução de 10% para os cardeais (que ganham cerca de 5.000 euros por mês), 8% para os chefes de dicastérios e diretores (incluindo alguns laicos) enquadrados nos dois primeiros níveis (C e C1), e 3% para padres e religiosos nos níveis C2 e C3. Ele também congelou os aumentos salariais bienais por tempo de serviço (2021–2023) para todos os trabalhadores, excluindo apenas aqueles dos níveis mais baixos (há 10 níveis no total), que ganham um salário de 1.300 euros por mês."

Fim da austeridade no Vaticano para cardeais, executivos, prelados de alto escalão e religiosos que trabalham nos Sagrados Palácios. Com um motu proprio assinado em 1º de setembro e divulgado ontem, Leão XIV revogou as medidas de contenção salarial introduzidas pelo Papa Bergoglio em 2021, no auge da emergência Covid-19, quando as receitas da Santa Sé haviam se reduzido significativamente, em parte devido ao fechamento forçado dos Museus do Vaticano, que normalmente geram 150 milhões de euros anuais para os cofres pontifícios. Agora que a tempestade passou, os salários mais altos podem retornar aos seus níveis anteriores. No entanto, permanecem em vigor outras medidas de corte de custos, como o congelamento de aumentos salariais que afetaram a maioria dos funcionários laicos que recebem salários médios e médios-baixos. A medida de Prevost, portanto, restaura a renda de poucos, mas não altera a situação de muitos trabalhadores que não recuperam o que perderam, e que foi ainda mais corroído pela inflação.

A primeira intervenção de Leão XIV ocorreu em junho de 2025, um mês após sua eleição, quando eliminou o corte de 3% para os níveis C2 e C3. E também restabeleceu um costume que Bergoglio havia rejeitado: um bônus de 500 euros para todos os funcionários pelo trabalho realizado durante o conclave.Agora a segunda intervenção, que revoga a medida de 2021 de seu antecessor e restabelece os salários integrais de cardeais, prelados e executivos do Vaticano, bem como os de funcionários de órgãos vinculados, como o Vicariato e as quatro basílicas papais de Roma. No entanto, mantém-se o congelamento dos aumentos salariais por tempo de serviço, que afeta a maioria dos 6.000 funcionários, dos quais 4.200 são laicos.

E que, além da falta de aumento salarial (em média, 60 euros mensais por 13 pagamentos), também influi sobre as futuras indenizações rescisórias e aposentadorias. A medida de Prevost, que entrou em vigor em 1º de setembro, atende aos pedidos de cardeais, chefes de dicastérios, prelados e executivos que veem a reversão dos cortes em suas remunerações. No entanto, ignora as reivindicações dos trabalhadores laicos que, já em julho, quando entrou em vigor o novo Regulamento do Pessoal da Cúria Romana, haviam reclamado de "salários congelados desde 2008, perda de poder de compra e a transformação dos aumentos salariais bienais em algo eventual". De fato, a Associação de funcionários laicos do Vaticano denuncia que "a suposta falta de recursos da Santa Sé não justifica fazer com que os funcionários devam pagar por um déficit pelo qual não têm nenhuma responsabilidade. Pelo contrário, seria oportuno examinar mais a fundo um modelo de gestão econômica que impede a Santa Sé de 'pagar ao trabalhador um salário justo'. Espera-se também que os diretores (neste caso, os cardeais, N.d.E.) deem o exemplo, considerando cortes em diversas áreas", desde salários até benefícios.

A reportagem é de Luca Kocci, pulicado por Il manifesto, 15-09-2026


 

Mineradora ré por garimpo ilegal na Amazônia abasteceu indústria bélica dos EUA

 Uma mineradora é ré por suspeita de integrar um esquema de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, já exportou estanho a empresas norte-americanas com contratos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O Pentágono classifica o metal como indispensável para a produção de componentes eletrônicos usados em seus equipamentos militares.

Apresentando-se como uma das maiores produtoras de estanho do mundo, a White Solder forneceu ao menos 525 toneladas para a americana Indium Corporation entre maio de 2023 e agosto de 2025, segundo registros alfandegários analisados pela reportagem. A Indium fornece soldas para a Raytheon, fabricante de sistemas militares, como radares e mísseis de alta precisão, que mantém diversos diversos contratos com o governo norte-americano. Com mais de 100 anos de atuação, a Raytheon faturou USD 88 bilhões em 2025. Um desses contratos, assinado em 2020 por US$ 2,2 bilhões, prevê a produção de sete radares de defesa antimíssil destinados a Arábia Saudita até 2027. Em outro contrato, assinado em 2024 e com validade até 2031, a Raytheon garantiu outros US$ 2,9 bilhões para fornecer aos Estados Unidos unidades do mais moderno radar de defesa aérea e antimíssil desenvolvido pela companhia. A White Solder também forneceu o metal para a norte-americana Nathan Trotter, que se define como a maior fabricante de estanho e ligas de solda da América do Norte. Entre agosto de 2021 e agosto de 2025, a companhia recebeu ao menos 2,4 mil toneladas da produtora de estanho brasileira, apontam registros alfandegários.

Em setembro de 2024, o Departamento de Defesa americano destinou US$ 19 milhões à Nathan Trotter para a empresa instalar uma unidade de fundição, refino e reciclagem de estanho no estado da Pensilvânia. O objetivo do aporte é fortalecer a produção interna de minerais críticos e “conter os esforços da China para monopolizar a oferta global e a reduzir as vulnerabilidades da cadeia de suprimentos”, diz o release divulgado pelo órgão. (IHU)

 

Prefeito da Cidade de Gaza: "A guerra acabou, mas vivemos em meio a escombros e destroços". Entrevista com Yahya al-Sarraj

 Yahya al-Sarraj afirma: "Continuamos sob ocupação, as Forças de Defesa de Israel não nos permitem acessar o que precisamos, estamos sem água e serviços básicos.". Yahya al Sarraj é um prefeito sem recursos, dinheiro, estradas, casas, aterros sanitários, luz, aquedutos, escritórios ou funcionários. Mas ele ainda é o prefeito da Cidade de Gaza, um engenheiro cedido à administração, que não pertence a nenhuma facção política. Ele não foi embora, não fugiu: permaneceu em sua cidade durante toda a guerra. E quando, à 1h da manhã, a estrutura de um prédio desabou sobre uma dúzia de famílias palestinas, às quais o destino não poupou nada, ele correu para tentar ajudar. Ele atende o telefone em frente aos escombros.

A entrevista é de Gabriella Colarusso, publicada por La Repubblica, 17-09-2026.

Eis a entrevista.

Como vai, prefeito?

Estou muito triste.

Aquele prédio havia sido atingido durante a guerra?

Estava parcialmente danificado, mas ainda de pé. Não era seguro, mas as pessoas daqui não aguentam mais viver em barracas e não têm alternativa: estão dispostas a arriscar a vida por um lugar para ficar. As barracas não são habitáveis: faz muito calor no verão e muito frio no inverno, e muitas já estão em péssimo estado. Poucas novas chegam. Precisamos de casas móveis ou casas de verdade.

Você tem os meios para cavar?

Não, temos muito pouco equipamento, e ele é muito antigo. Não é adequado para resgatar pessoas presas sob os escombros.

Pediu às autoridades israelenses permissão para usar mais equipamentos de escavação?

Já faz uns três anos que estamos pedindo; ninguém nos ouve, não nos dão permissão. Precisamos de tudo: materiais de construção, peças de reposição. Se tivéssemos tudo isso, poderíamos ter consertado os prédios que correm risco de desabar.

Esta manhã, ligamos para organizações internacionais pedindo autorização para trazer todo esse material. Estamos cavando com as próprias mãos.

Já se passou quase um ano desde o cessar-fogo: qual é a situação na Cidade de Gaza?

Temos mais comida, a fome acabou, mas muitos itens básicos não estão chegando. É sobrevivência, não vida real. A maior parte dos escombros da guerra ainda está lá, com os mortos embaixo. Só conseguimos limpar as estradas principais.

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Temos um problema com o lixo, porque não nos permitem transportá-lo para os aterros sanitários no leste de Gaza, que ainda estão sob ocupação israelense. Somos obrigados a gerenciar o lixo dentro das áreas residenciais, com todos os riscos à saúde que isso acarreta.

Você tem água potável?

A disponibilidade de água corresponde a cerca de 30% das nossas necessidades. Conseguimos obter água potável limpa graças a algumas organizações internacionais. No entanto, muitos poços não estão funcionando.

E quanto aos banheiros? Os habitantes de Gaza têm permissão para tomar banho?

Este é um dos principais problemas. Os israelenses não permitem a construção de novos banheiros, e as pessoas tentam se virar: usam uma parte da barraca como banheiro ou simplesmente cavam um buraco no chão, o cobrem de alguma forma e fazem suas necessidades ali. Mas essa não é uma vida digna.

Como se ganha a vida em Gaza?

O desemprego provavelmente está acima de 70-80%, as pessoas dependem de auxílio.

As crianças vão à escola?

Sim, mas em dias alternados, porque não temos espaço suficiente para todos. Muitos não comparecem às aulas.

Você pediu ajuda ao governo interino palestino estabelecido pelo Conselho de Paz de Trump?

Claro, mas eles parecem paralisados. O plano de Trump está fracassando; quase nada foi implementado, exceto uma redução no número diário de vítimas. A travessia de Rafah está fechada: apenas cerca de 150 pessoas podem entrar ou sair por dia, em meio a inúmeras restrições.

O Hamas concordou em desarmar-se e renunciar ao poder: acredita nisso?

Eles afirmaram repetidamente que estão prontos para partir, e alguns deles de fato já o fizeram. Mas se todos partissem agora, isso criaria um vácuo de poder que poderia levar a confrontos e agitação. Alguém precisa ocupar o lugar deles, mas ninguém está disposto a fazê-lo. Uma força internacional de estabilização deveria intervir em Gaza, separar palestinos e israelenses e pôr fim às mortes que ocorrem diariamente.

Por que você diz que sem o Hamas haveria caos?

Como existem muitos grupos armados e milícias que colaboram com os israelenses, se surgir um problema entre duas pessoas, quem o resolverá? É preciso a polícia. É preciso autoridade. Não se pode viver sem um governo.

O que você pede da comunidade internacional?

Considerar os habitantes de Gaza como seres humanos, não como números. Nós, palestinos, somos um recurso, não uma ameaça. Temos uma das populações mais instruídas do mundo. Queremos trabalhar, não depender de ajuda. Queremos reconstruir uma vida em paz, uma vida com dignidade.

 

"Ultrapassar os limites desperta o monstro que existe dentro de nós". Artigo de Massimo Recalcati

 Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles traça uma linha clara que separa irreversivelmente o humano do monstruoso. Enquanto o humano seria orientado pela razão para a virtude, o monstruoso, ao contrário, não conheceria nem razão nem virtude. A terrível lição de Freud quebra traumaticamente o encanto de Aristóteles, revelando que o monstruoso não é de modo algum externo ao humano, mas lhe diz respeito intimamente. Não surge, como pensava Aristóteles, da animalização do humano, mas representa sua expressão mais significativa. Acrescenta-se que o monstruoso não coincide com o deformado, o aberrante ou o excessivo. Nem sempre tem a face da loucura, da ferocidade incontrolável ou da paixão destrutiva, do estranho ou do hostil, mas – como muitos episódios da transição para a ação criminosa demonstram – pode também ter a face reconfortante do empregado, do funcionário público, do homem que volta para casa depois do trabalho, do pai de família.

Em um famoso curso intitulado Introdução à Metafísica, ao interpretar o coro da Antígona de Sófocles, Heidegger se detém na célebre definição do homem como o ser "mais perturbador": "De muitas espécies existe o estranho, mas nada é mais perturbador do que o homem". Em suma, não há ser "mais terrível" ("mais poderoso" e "mais extraordinário") do que o homem. Heidegger traduz o estranho sofocliano como o "estranho", ou melhor, o "inquietante": o homem constrói sua própria casa, ergue cidades, gera cultura, determina fronteiras, atravessa mares, cultiva a terra, captura animais, estabelece leis, domina a natureza. Sua técnica revela uma vontade de poder que constantemente transforma o familiar em seu oposto. O monstruoso, portanto, não é o homem moralmente mau — não virtuoso no sentido aristotélico —, mas define o humano como tal. A violência mais terrível e cruel não é a dos animais, que visa garantir a sobrevivência da espécie, mas sim a dos humanos, movidos pela tentação de dominar o mundo, de ultrapassar os limites, de cruzar as fronteiras da família impunemente...

......Talvez seja por isso que Freud chegou a definir a humanidade como uma raça ruinosa rumo à sua própria destruição. Ser humano significa não apenas estar destinado à morte, mas ter o poder de semear a morte, decretar sadicamente a morte dos outros e cultivar masoquicamente a própria. Nesse sentido, o homem seria o monstro mais monstruoso. Não é coincidência que, para Freud, a pulsão mais fundamental que define o ser humano seja a pulsão de morte. O homem não é uma criatura monstruosa ao lado de outras criaturas normais, mas é o único animal que carrega consigo a monstruosa tentação de dominar. Em Antígona, relido por Heidegger, também evoca, e é a mesma reflexão lúcida que encontramos em Freud: quando o homem rejeita a sua própria castração — a sua própria finitude — ele se torna perigoso para si mesmo e para os outros. O monstruoso não é o caos desafiando a ordem, mas uma virada trágica que a ordem pode eletivamente tomar quando perde a sua dimensão humana finita

 Comentário do blogueiro - Em tempos de eleição, de suposta oportuidade de análise de propostas, projetos, comparações de perfis de candidatos, de histórias de vida é sempre bom refletir sobre as reflexões do Massimo Recalcati, principalmente numa hora em que no nosso País os 'limites' estão sendo ultrapassados e as monstruosidades jáa vêm despontando e ceifando vidas

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

XXV domingo comum - QUEM SE SENTE AMADO NÃO FICA COM CIÚMES SE OUTROS TAMBÉM SÃO AMADOS, SEJA QUEM FOR!

Seria interessante analisar o perfil daqueles cristãos que ainda hoje, como os fariseus de ontem, se indignam com a mensagem central da famosa parábola dos trabalhadores contratados em diferentes horários e ganhando o mesmo e idêntico salário. Eles manifestam uma obtusidade que só se explica pelo fato de discordarem frontalmente do modo ‘excessivamente’ generoso de proceder do próprio Pai. Imbuídos de arrogância e inveja esses supostos discípulos não toleram que os recém-convertidos à Boa Nova de Jesus possam usufruir, da mesma forma, a atenção, o carinho e a acolhida do próprio Mestre. Eles manifestam, afinal, uma consciência distorcida impregnada de ressentimento que os leva a se acharem, arrogantemente, mais dignos de amor e de atenção do que aqueles pecadores públicos ‘desprezíveis’ que só tardiamente acolheram o convite de Jesus. Essas atitudes revelam como deveria ser o verdadeiro caráter de um discípulo. O discípulo deveria assumir e reproduzir as mesmas atitudes do Pai que trata de forma ‘inexplicavelmente’ generosa os filhos-trabalhadores da ‘última hora’, sem jamais deixar de amar e assistir os filhos-discípulos da ‘primeira hora’! Por que, então, sentir ciúme ou inveja se o Pai quer oferecer também a outros o mesmo salário preenchido de amor e compaixão? Ou, por acaso, os discípulos da primeira hora acham que são os únicos merecedores de prêmios e reconhecimentos por ter feito o que deviam e se sentiam de fazer? Por acaso, o salário da paz interior e da presença amorosa do Pai não é suficiente???!!!!!!


terça-feira, 15 de setembro de 2026

COMO MORREM AS DEMOCRACIAS - Por Luís Nassif

A democracia exige ritos, tanto no processo político quanto no jurídico. São esses ritos que garantem os freios e contrapesos, definem limites e direitos e impedem abusos. A democracia brasileira começou a morrer no impeachment de Dilma Rousseff. O clamor das ruas, alimentado pela Lava Jato, uma imprensa submissa e um Supremo Tribunal Federal que se deixou intimidar, fizeram com que os procedimentos fossem atropelados. Aceitou-se uma inovação jurídica — as tais “pedaladas” — como fundamento para um processo de impeachment espúrio. Nem o ministro do STF que comandou a ópera bufa acreditava nos argumentos. Foi um período desmoralizante, no qual uma ministra, Rosa Weber, votou por uma regra que tirava Lula das eleições de 2018 em nome da “colegialidade” — isto é, para acompanhar a maioria. Com o detalhe de que seu voto era o de desempate. De lá para cá, o trem descarrilhou. Abriu-se espaço para um presidente envolvido com milícias, trazendo para o primeiro plano da política nacional o pior rebotalho político da história. Tentou-se até um golpe de Estado. No último momento, houve uma reação das forças democráticas, o STF acordou e, graças aos poderes conferidos ao ministro Alexandre de Moraes, conseguiu desmontar a primeira tentativa de golpe.

Mas o trem já estava descarrilado. Em nome da defesa da democracia, os procedimentos continuaram sendo atropelados, com o sentido de urgência justificando a pressa em resolver questões para conter a ameaça golpista. De atropelo a atropelo, a democracia foi recolocada nos eixos. Mas os ritos continuaram sendo desrespeitados, e o poder absoluto cumpriu a regra histórica de corromper quem o exerce. Tudo isso ocorreu em uma quadra de profundas transformações nos tribunais superiores, marcada por práticas inimagináveis em outros tempos: parentes de magistrados atuando nas cortes, viagens internacionais patrocinadas e seminários organizados em torno do poder individual de ministros, depois de atropelada a colegialidade. Não foi preciso muito para o pequeno André Mendonça conseguir implodir o Supremo. Bastou uma granada de mão para que todo o edifício viesse abaixo. Logo ele, ligado até as tampas ao esquema Bolsonaro e, possivelmente, a Daniel Vorcaro. Atrás da bomba vieram os justiceiros oportunistas de sempre: juristas e editorialistas de baixíssimo nível, buscando esfolar o Supremo e abrir caminho para Flávio. Como dois e dois são quatro, na hipótese terrível de uma eleição de Flávio, acaba a democracia brasileira — ou qualquer veleidade de o país sobreviver como nação. Não se trata de passar pano, mas a prioridade máxima é preservar o Supremo. Nem sei o que acontecerá na sessão de logo mais. Mas, se forem expostas as vísceras do Supremo, para gáudio dos urubus jurídicos e da mídia, pouco restará da democracia brasileira. A cumplicidade de jornais e jornalistas com o bolsonarismo já conseguiu embolar o meio de campo: trinta dias de manchetes em torno de uma notícia falsa — o envolvimento de Fábio Luís com a esbórnia — lançaram confusão sobre a opinião pública, proporcionaram o crescimento de Flávio e afastaram de Lula o centro e a direita racional. Há poucos dias para reverter a situação. Mas existe um empenho gigantesco dos brasileiros democratas e patriotas para impedir o desastre final. Se isso não ocorrer, setembro de 2026 será registrado nos livros de história como o mês em que a imprensa conseguiu destruir a democracia brasileira.

  

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

XXIV domingo comum - PERDOAR NÃO É IGNORAR O MAL COMETIDO; É PRATICAR UM AMOR EXIGENTE, E NÃO DESISTIR JAMAIS DO PECADOR

Muitos de nós se lembram do que se comentava à época da covid: ‘Nunca mais seremos os mesmos’. Mergulhados naquela experiência traumática supunha-se que iríamos aprender a ser, no futuro, mais humanos e mais compassivos, entre outras coisas. Ledo engano. Após alguns meses, e diminuídos os casos da pandemia, voltou-se a uma intrigante e constrangedora normalidade. Continuamos com os mesmos vícios e dependências e, em alguns casos, tornamo-nos até mais embrutecidos. Não aprendemos a lição de vida que nos era revelada através da dor e da perda! No evangelho de hoje Jesus enfatiza a necessidade de perdoar sempre, o tempo todo. Jesus entende que uma pessoa ao se sentir perdoada e agraciada, deveria, por sua vez, aprender a perdoar e a ser generoso com os demais. Contudo, o Mestre observa que, infelizmente, o ser humano tende a se deixar dominar pelas suas pulsões de dominar e humilhar, de controlar e oprimir. Esquece que um dia, ele mesmo, foi um agraciado, um poupado! É nesse contexto que Jesus deixa claro que perdoar não é ignorar o mal cometido por alguém. Isto seria uma grave omissão que cheira a cumplicidade. Perdoar é, antes de tudo, praticar um amor ativo e exigente, ou seja, ajudar quem errou a praticar, concretamente, a compaixão lá onde ele semeou brutalidade, e a tolerância onde praticou intolerância.


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Sem controle, novos modelos de IA representam 'risco existencial para a humanidade', diz ONU

 O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, alertou nesta segunda-feira (7) para a necessidade de elaborar rapidamente mecanismos de governança da inteligência artificial (IA). Segundo ele, formas avançadas da tecnologia "podem representar um risco existencial para a humanidade". Para Volker Türk, quando uma IA escapa de seu ambiente de testes ou chantageia desenvolvedores para evitar ser desligada, "ela é uma IA poderosa demais". A declaração foi feita na abertura da 63ª sessão do Conselho de Direitos Humanos, em Genebra. Ele também pediu a adoção de salvaguardas sólidas para a segurança e a proteção dessas ferramentas, "antes que seja tarde demais". O comissário criticou o monopólio em torno da tecnologia, que, segundo ele, está nas mãos de um grupo com poder quase ilimitado sobre a IA e sua capacidade de processamento. "Ela nos é constantemente apresentada como inimaginável. As empresas falam de liberdade, mas, ao olhar mais de perto, percebe-se que se trata sobretudo da liberdade de explorar nossos dados", afirmou. A IA que engana seres humanos já é uma realidade. Os modelos mais recentes não se limitam a seguir instruções e chegam a mentir, agir de forma manipuladora ou fazer ameaças para alcançar seus objetivos, o que preocupa parte da comunidade científica.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Patriarca e o criminoso de guerra Ratko Mladić

 As imagens correram o mundo: longas filas se formaram em frente à Igreja Ortodoxa de São Lucas, na capital sérvia, Belgrado. As pessoas carregavam bandeiras e cartazes, e camisetas estampavam o retrato de Ratko Mladić. Elas vieram prestar suas últimas homenagens a um homem que entrou para a história como o "Açougueiro dos Balcãs" e foi condenado à prisão perpétua como criminoso de guerra. E fizeram isso com a bênção da Igreja Ortodoxa Sérvia. Mais de 300 sacerdotes ortodoxos compareceram à missa de sétimo dia de Mladić na manhã de segunda-feira. Entre os presentes, estavam diversos representantes do governo sérvio. O político nacionalista Milorad Dodik viajou da República Sérvia, a entidade dentro da Bósnia e Herzegovina. A cerimônia religiosa foi presidida pelo próprio chefe da Igreja Ortodoxa Sérvia: o Patriarca Porfirije Perić conduziu pessoalmente o sepultamento. Em seu sermão, o Patriarca minimizou os veredictos do tribunal de crimes de guerra da ONU e defendeu a reabilitação moral de Mladić. "Ele fez um sacrifício e deu a vida pela defesa e sobrevivência de seu povo", disse Porfirije, enfatizando que "os tribunais terrenos não são infalíveis e não aplicam todos o mesmo padrão". Somente o julgamento de Deus é autoritativo. Mladić morreu no hospital penitenciário de Haia há cerca de uma semana e meia. Em 2017, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia condenou o ex-chefe do exército sérvio-bósnio à prisão perpétua por genocídio e crimes contra a humanidade cometidos durante a Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995. Seu nome está indissoluvelmente ligado ao massacre de Srebrenica, em 1995. As tropas sérvias sob seu comando invadiram o enclave protegido pela ONU e assassinaram aproximadamente 8.000 homens e meninos muçulmanos. Mladić também foi condenado por crimes cometidos durante o cerco de quase quatro anos à capital bósnia, Sarajevo. Apesar dessa convicção, Mladić continua sendo reverenciado como um "herói" na Sérvia, mesmo após sua morte. Isso ficou evidente não apenas pelas grandes multidões presentes em seu funeral, mas também pela extensão dessa veneração aos mais altos círculos da Igreja Ortodoxa Sérvia. Na semana passada, o Metropolita Metódio da Igreja Ortodoxa Sérvia de Budimlje-ikšić homenageou Mladić como um "santo guerreiro sérvio" durante uma missa em sua memória. "Que a Virgem Maria, cuja Assunção celebramos, eleve também sua alma entre todos os santos guerreiros sérvios, o renomado General Ratko", disse o Metropolita aos numerosos presentes.

 VERGONHA, VERGONHA....VERGONHA

Para os Padres dos Pobres, o governo de Milei é o pior da história

O grupo católico Padres pelos Pobres (OPP) afirmou que o governo de Javier Milei está "mergulhando a população em um profundo abandono social" devido à falta de políticas públicas que beneficiem os setores marginalizados. Apontaram para a perda de empregos formais, o endividamento dos bairros, o aumento dos suicídios e as práticas imperialistas e corruptas empregadas por funcionários do governo. Em sua declaração, afirmaram: "Precisamos nos libertar desta encruzilhada neoliberal e fascista. Precisamos rejeitar este, o pior governo da nossa história democrática." O grupo de padres se reuniu na cidade de Sañogasta, em La Rioja, e compartilhou aquela que seria a mensagem final do encontro. Ali, constataram que a pobreza e o desemprego entre os argentinos “só diminuíram nos discursos oficiais” e convidaram os diversos atores sociais e políticos a serem criativos na “busca de soluções para a gravidade da situação para a qual esse modelo está nos conduzindo”. Em relação ao modelo econômico libertário, o grupo afirmou que ele foi concebido para beneficiar "uma minoria privilegiada que não está disposta a abrir mão de seu modo de vida". Além disso, sustentaram que "dar tempo a este governo" significa "afastar-se cada vez mais de uma solução democrática para este projeto nefasto". Eles também apontaram para o uso sistemático de “mentiras como arma política”, mentiras que são amplificadas nas redes sociais por trolls, bots e algoritmos “direcionados em favor dos suspeitos de sempre”. A mensagem condena a “evidente interferência do império”, que pode ser vista nas ações de líderes políticos que “se vendem ao maior lance, traindo assim suas consciências e seu país”. Apesar de tudo, os sacerdotes expressaram otimismo quanto à construção de uma solução democrática, mas enfatizaram que é imprescindível que a sociedade reflita sobre o tipo de país que deseja para o futuro. “Sabemos que uma pátria de irmãos e irmãs é possível, não uma pátria de opressores e oprimidos, patrões e clientes, senhores e escravos.” Para concluir, mencionaram a próxima visita do Papa Leão XIV, de quem esperam receber uma defesa da justiça social e uma crítica ao governo atual: “que ele demonstre compaixão pelos pobres e uma condenação inequívoca dos responsáveis ​​pelas mortes”. (IHU)