terça-feira, 5 de agosto de 2008

Combonianos do Brasil Nordeste se manifestam por ocasião do processo político eleitoral

Nós Combonianos do Nordeste, reunidos em Açailândia/MA, refletimos sobre o sentido de mais um processo eleitoral político que culminará com a escolha de novos administradores municipais de 5.600 cidades do Brasil. O nosso olhar é propositalmente condicionado e filtrado pelas variadas e preocupantes situações em que vivem as pequenas e grandes cidades do Nordeste, região onde atuamos.

O processo eleitoral, apesar das decepções com a política formal, continua sendo visto como um momento mágico e deslumbrante, carregado de expectativas. Muitos imaginam que se escolhêssemos um “bom candidato” e derrubássemos “os ruins”, o Brasil mudaria. Ao longo desses anos, pelo nosso voto, sucederam-se bons e maus políticos. Persegue-nos, contudo, a sensação de que, até hoje, nenhum deles está dando certo. Não se pode esquecer que mesmo votando mais uma vez, continuaríamos nos decepcionando com os novos eleitos, pois não são eles que vão mudar. Quem tem que mudar somos nós, cidadãos e cidadãs do Brasil! Somos nós, a verdadeira matéria prima que tem o poder de construir outro País e outra cidadania.

Ao olharmos para essas fases iniciais de campanha eleitoral constatam-se numerosos casos de abuso de poder econômico e escandalosas formas de “aquisição” de voto. É revoltante a desfaçatez com que inúmeros candidatos e seus próprios partidos praticam ou deixam acontecer tudo isso, não obstante as pequenas reformas políticas adotadas recentemente para evitar abusos do poder econômico. Esquecemo-nos, todavia, que nós também estamos alimentando essa máquina iníqua que corrompe e banaliza o sistema democrático participativo ao aceitarmos passivamente tudo isso.

Não se pode ignorar, entretanto, que esse momento eleitoral se re-apresenta, paradoxalmente, como um gesto pedagógico quase que a nos confirmar sobre a urgência e a justeza do nosso empenho em favor da construção da verdadeira “cidadania”. Esta não se constrói durante um processo eleitoral. Não passa pela eleição de alguns políticos que “vivem da política” formal, apesar da sua capacidade administrativa e clarividente. A “nova cidade humana de direito”, ou seja, a cidadania consciente e responsável se constrói no cotidiano, quase sempre longe dos gabinetes dos prefeitos e das negociações escusas das Câmaras de Vereadores.

A cidadania é planejada e construída a partir das praças sem jardins, dos bairros sem saneamento básico, das escolas e hospitais sucateados, das ruas esburacadas e nas periferias abandonadas e ocultadas pelos centros das cidades e de seus luxuosos condomínios; nas microscópicas iniciativas de economia solidária, na crescente consciência da importância do ambiente e na intransigência contra a corrupção; nas insistentes reivindicações localizadas que manifestam a vontade de tantos cidadãos e cidadãs de serem reconhecidos como “gente”!

Por tudo isso, nós Missionários Combonianos do Nordeste reafirmamos o nosso compromisso de irmos além da participação dos processos políticos eleitorais. De superarmos a falácia de que os destinos de uma cidade se jogam numa eleição, e na escolha de um “bom candidato”. Queremos continuar a nos educar à responsabilidade cidadã, à ética nas pequenas e grandes opções e à firmeza moral quando a lógica do poder e do dinheiro se apresenta como algo “normal”. Queremos continuar a nos educar juntamente com o numeroso exército dos “sem voto”, dos “sem registro”, dos “sem bolsa”. Ao lado, também, de todos aqueles cidadãos e cidadãs, operadores da justiça e do direito, grupos e movimentos, políticos que “vivem pela política”, e que têm consciência de que, enquanto não houver verdadeira educação à convivência cidadã baseada no respeito e na tolerância, não haverá país livre, democrático, humano, justo e soberano.

Açailândia, 31 de julho de 2008

Romaria da terra em Bom Jesus da Selva. Pe. Flavio Lazzarin nos propõe uma reflexão.

“29 Uma coisa eu digo a vocês, irmãos: o tempo se tornou breve. De agora em diante, aqueles que têm esposa, comportem-se como se não a tivessem; 30 aqueles que choram, como se não chorassem; aqueles que se alegram, como se não se alegrassem; aqueles que compram, como se não possuíssem; 31 os que tiram partido deste mundo, como se não desfrutassem. Porque a aparência deste mundo é passageira.”(1 Cor 7,29-31)

Será que Paulo, com esta profecia, quer mesmo negar o mistério e a beleza do relacionamento entre a mulher e o homem? E o dom precioso da fraternidade e da amizade? Será que quer fechar os olhos, e o coração, diante das lagrimas e do sofrimento dos pobres? Ou talvez tenha esquecido de Jesus quando chorou a morte do amigo Lázaro? E das lagrimas do Mestre, que, contemplando Jerusalém, chorava sobre os corações de pedra, que se fecham à Bela Notícia do Reino? Será que Paulo despreza a alegria e o convívio carinhoso e amoroso da família e da comunidade?

Não podemos acreditar que o sentido destas palavras, endereçadas à comunidade de Corinto, se resuma na proposta de viver neste mundo adotando o estilo do “fazer de conta”, como se não tivesse importância para os cristãos a economia, a política, a história e a própria Vida. Como se a situação dos povos indígenas e dos povos do campo e das cidades não pesasse na balança da Justiça do Reino do Pai.

Como se o grito do Planeta Terra, da Amazônia e do Cerrado, do Sertão e da Mata Atlântica, do Pantanal e da Caatinga, do Rio São Francisco, do Rio Itapecuru, Mearim, Parnaíba, Balsas, Pindaré... agredidos e destruídos pelos grandes negócios do capitalismo, não tivesse chegado aos ouvidos de Javé.

Como se o fatalismo, tão presente no meio do povo, fosse a pedra, religiosamente colocada sobre todos os sonhos de uma vida e de um mundo diferente. Como se o medo diante dos poderes e dos poderosos fosse a única lei que governa a história. O medo como condenação: aceita e interiorizada pelos oprimidos e excluídos.

O medo como submissão: aceita como a única forma de “bom senso” para poder sobreviver numa realidade de injustiça e desigualdade, de clientelismo, apadrinhamento, cooptação. E chantagem praticada por quem manda para negar a dignidade e os direitos fundamentais dos pobres.

O medo que nos faz repetir, há séculos, que “cachorro sem dono, não presta”... E, freqüentemente, os pobres reproduzem a lógica dos seus opressores, herdando a esperteza de tirar vantagem, mentir e roubar – como boa parte de nossos administradores - sem se preocupar com a vida dos outros. E acontece que, às vezes, os pobres repetem o esquema da opressão dentro de seus lares e quem sempre fica humilhado e oprimido, no mundo como nas nossas casas, são os mais fracos: as mulheres e as crianças.

O que significa, em fim, que o cenário deste mundo é passageiro? A proposta de Paulo não é a fuga deste mundo! É o contrario!

Como tudo passa, tudo é passageiro, estamos proibidos de divinizar o poder de quem manda no Município, no Estado, no Brasil e no Planeta. O poder do latifúndio, dos madeireiros e dos usineiros, o poder do agro-negócio, o poder imperial dos Estados Unidos... tudo isto passa... termina, fenece, morre...Como tudo passa, é possível intervir na realidade e transformá-la.

O que fica é a pessoa de Jesus e as sementes do Reino, que está perto, que está presente em quem, com a comunidade, venceu o medo com a fé. E quantas irmãs e irmãos, também no nosso meio, são fieis a Jesus de Nazaré e ao Reino de justiça e paz, Reino de misericórdia e verdade!!!

E nós conhecemos muitos companheiros e companheiras, que participam da construção de um novo céu e de uma nova terra, com as suas práticas comunitárias, eclesiais e sociais!!! Nas Cebs, que acreditam na força da comunidade que reza, que ama, que resiste e que luta; nos lutadores e lutadoras pela terra com t minúsculo e pela Terra com T maiúsculo; na resistência secular dos povos indígenas; na teimosia das famílias camponesas, que continuam cuidando da terra e da sua cultura; nos mártires da caminhada: Padre Josimo, Irmã Dorothy e todos os mártires da terra.

Nos que acreditam no reinado de Jesus, Senhor da Vida, Senhor do Universo, companheiro daqueles e daquelas que defendem a Vida e não temem a morte.

sábado, 2 de agosto de 2008

Multiplicando pão e partilha: boa nova para os “sem pão” e para os...”sem cobiça”! (Mt.14,13-21)

O trecho evangélico dominical exalta mais uma vez o grande sonho-utopia de alguns grupos do antigo Israel: a realização de um grande banquete onde todos os povos (não somente Israel!) pudessem aceder e se fartarem com “carnes gordas e vinhos refinados”. Lugar onde “toda lágrima seria enxugada”. O profeta Jesus alimenta essa utopia explorando toda oportunidade, ocasião, pretexto. Mas só isso seria pouco demais! Jesus, de alguma forma, vai além da utopia, a supera e a realiza. A “u-topia” (algo que não se encontra-constrói em nenhum lugar) torna-se “topia” (algo que se encontra-constrói em algum lugar). E como um bom pedagogo, oferece algumas dicas......

1. “Viu uma grande multidão” (v.14) O ver do profeta Jesus vai além de uma simples função fisiológica. Vai além de um simples olhar sociológico, uma constatação fenomenológica. É o olhar penetrante que mergulha nas ânsias e anseios das pessoas, nas angustias, nas fobias inconscientes e nas expectativas coletivas. A multidão reduzida e numericamente insignificante torna-se, aqui, “grande”, do tamanho de suas necessidades e da sua vontade de ser vista. Jesus consegue ver os que são “invisíveis” aos olhos dos que moram nos palácios governamentais e episcopais, e nos gabinetes e câmaras municipais.
2. “tomado de compaixão....” (v.14) em grego: “as vísceras se contorceram”. Em outras palavras: Jesus sentiu até na alma o drama das pessoas. Ter compaixão não é uma mera sensação reflexa de caráter psicossomático, mas é uma postura perante as pessoas e as situações da vida. Implica ser educado a “sentir”. Quem não sente não vê. Poderíamos dizer que Jesus sentiu, contorceu-se por dentro, e por isso viu...a grande multidão e suas necessidades.
3. “Despede as multidões para que vão às aldeias comprar alimento para si” (v. 15) O pensamento-prática dos discípulos vão na contra-mão da utopia acariciada e apregoada por grupos minoritários de Israel. Segundo os discípulos o “grande banquete” só pode ser construído mediante o dinheiro (compra-venda), ou seja, relações de mercado. Além disso, um mercado voltado não para comprar e abastecer a todos e sim, para si próprio. Relações mercantilistas e individualistas. É isso que eles conhecem e é isso que eles reproduzem. Eles precisam fazer a experiência de conhecer algo alternativo. Fazer a experiência que a abertura e a acolhida do outro, a solidariedade, o estar com, não podem jamais ser comprados.
4. “Dai-lhes vós mesmos de comer” (v.16) Frequentemente delegamos os outros a fazer e a assumir responsabilidades e compromissos. Colocamo-nos no meio da “grande multidão” como mediadores e intermediários iluminados, mas o discípulo é aquele que assume, se expõe, não tem medo de se sujar, de se queimar, de se misturar. O banquete é construído se é a gente que providencia o necessário para que as pessoas ao sentarem à mesa tenham de que se alimentar.
5. “Só temos aqui 5 pães e 2 peixes” (v.17) O alimento já está entre nós. Não precisamos comprá-lo. Ele está mal distribuído, mas é o suficiente para que se evite entrar na dinâmica do mercado, na compra-venda. E é suficiente para que se alimentem todos os presentes. Trata-se, agora, de convencer as pessoas de pôr em comum o alimento que já está dentre eles e encontrar os critérios para partilhá-lo de forma equânime entre todos.
6. “Todos se saciaram e ainda recolheram 12 cestos” (v.20) Jesus consegue persuadir os presentes a tomarem consciência de que o banquete não é preparado por alguém externo, um benfeitor ou um caridoso, mas que ele é o resultado da capacidade de “nós mesmos” socializarmos o pouco ou o muito que temos. E distribuí-lo segundo os critérios das necessidades, da justiça restaurativa, e não segundo os critérios da justiça distributiva (dar a cada um o seu!). A quem precisa mais, dá-se mais, a quem precisa menos, se dá menos! O resultado imediato é claro: fartura plena para todos os presentes que participaram. E mais do que isso: sobra tanto alimento (12 cestos!) capaz de alimentar a humanidade inteira, - que não está aí, - mas que poderá ser convidada e se saciar ao participar da construção da "topia" do “grande banquete”. As sobras não são as mais-valias de uma relação mercantilista que não existiu, mas a prova evidente de que relações sociais e econômicas alternativas podem ser experimentadas e construídas. O inédito e o surpreendente estão ao nosso alcance: multipliquemos pão e justiça!

Bom domingo a todos-as!

sábado, 19 de julho de 2008

ANOTAÇÕES PARA UMA ANÁLISE DE CONJUNTURA ECLESIAL I

Análise de conjuntura só faz sentido se ela consegue levantar e apontar tendências, rumos em vista do futuro, não do presente. Entender o presente para perceber o que poderá ocorrer no futuro. E dessa forma se preparar para intervir, modificar e construir cenários desejados. A igreja só pode ser entendida dentro do grande contexto-cenário que é a sociedade em todas as suas dimensões. Ela vive e atua inserida nesse contexto maior. Afinal, é formada por gente e não anjos. Ora, se essa sociedade está passando por mutações de toda ordem e da ordem toda, a igreja não escapa disso. Se não conseguimos ter noção das mudanças estruturais que hoje estão ocorrendo nos é difícil entender o que vem ocorrendo com ela. Ao não entender isso podemos acabar emitindo julgamentos estapafúrdios sobre nós mesmos e sobre os outros e assumir atitudes fora da história, inadequadas.

A sociedade hoje está vivenciando aquilo que poderíamos definir de modernidade “líquida” em contraposição à modernidade sólida, de uma passado recente. Na modernidade líquida vão se desestabilizando, flexibilizando, precarizando as sólidas certezas que por muito tempo podíamos contar: trabalho, tempo, espaço, estado, ética-moral, dogmas-doutrina, família... A individualidade/pessoa se liquefaz, se fragmenta, sente-se sozinha mesmo estando no meio de tantas outras pessoas. As relações inter-pessoais tornam-se sempre mais conflituosas e assumem características mercantilistas. É como se estivéssemos jogando vários jogos simultaneamente e que durante o jogo mudassem as regras improvisamente e somos obrigados a aprender novas regras e novos jogos. Dessa forma somos obrigados a nos acostumar a desacostumar. O que considerávamos um hábito, um costume que dava segurança solidez, tem que ser re-inventado, re-criado. Se é isso que vem ocorrendo com a sociedade a igreja não vai poder se descolar dessa macro-realidade.

Tem-se a sensação-percepção de que há dentro da igreja um certo e compreensível desnorteamento...pois o próprio norte se tornou...líquido. Ele não aparece com aquela solidez que nos parecia existir num passado próximo. Experimenta-se uma profunda insegurança nas nossas escolhas e decisões. Hoje, é-nos mais fácil dizer o que não queremos do que dizer o que queremos! A suposta segurança que provinha das nossas metodologias comprovadas, das sólidas opções evangélicas e pastorais, planejamentos estratégicos, organização centralizada ou não, assembléias mais ou menos representativas, doutrina dogmática, moral, parece-nos, agora, tudo tão solto, tão fluido....Perguntemo-nos, então, como a igreja – entendida não como algo homogêneo, - reage diante dessa fluidez social e cultural?

Percebe-se que, em geral, há uma dificuldade estrutural em perceber que há mudanças radicais ocorrendo e, ao percebê-las, nos chocamos com uma incapacidade de fundo em compreendê-las e intuir o seu alcance. Parece-me enxergar nisso três cenários para a igreja ser entendida, hoje. São ao mesmo tempo tendências e atitudes, reações-respostas.

Cenário I
Diante do novo, do inédito, do incompreensível (no imediato), do escorregadio, há setores da igreja que se deixam vencer pelo medo, pelo pavor. O medo de se perder ou perder o que achava certo, sólido, o que, supostamente, dava sentido à sua vida. O medo paralisa, é traiçoeiro, distorce a realidade, nos faz ver coisas que não existem na realidade objetiva. Como forma de superar esse medo produzido pelo inédito, pelo novo-diferente, esses setores da igreja –que parecem ser hegemônicos – procuram se agarrar com mais força ao passado, agora, porém, idealizado e mistificado. Tudo o que acontecia no passado lhes aparece bonito! O presente é visto como fonte de incerteza, de falta de sentidos, de queda de valores, de...relativismos de toda ordem...É este o caminho que está sendo trilhado, por exemplo, pelo atual papa Bento XVI e por muitos setores da igreja católica, e não só a hierárquica.

É fuga ao e no passado. Não ao passado fundador de inspiração, mas apresentado agora como o único e verdadeiro espaço de realização da verdadeira igreja. Procura-se proteger a igreja numa redoma resplandecente para ela não se contaminar/misturar com um mundo visto como desviante, corrupto e perdido. A volta ao latim, às grandes e solenes liturgias, os show/missas, a atenção à quantidade de fiéis, os grandes templos com grandes massas, a coisificação/banalização do simbólico (estolas, casulas, báculo, comunhão na boca, coroinhas, etc.) a pacificação com movimentos tradicionalistas e cismáticos como o de Lefévre, o apoio irrestrito àqueles movimentos pentecostais supostamente católicos que representam verdadeiras injeções alucinógenas, a dificuldade de dialogar com outras igrejas não reconhecidas sequer como igrejas, pois só a católica teria o depósito da fé verdadeira – só conferir a Dominus Jesu, a Motu próprio“ e, ultimamente, “Sobre certos aspectos da doutrina sobre a igreja”, - para comprovar tudo isso.
Tudo isso expressa a negação das reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II. É, inclusive, uma clara desautorização das próprias instâncias decisórias eclesiais. É a negação ao diálogo com o mundo e com a própria igreja/povo de Deus, com a sociedade...líquida! Nesse cenário/atitude a igreja perde o seu poder moral e o seu poder de interferir e mediar/negociar conflitos e defender direitos. Isola-se ao se colocar acima dos outros. Perde a moral e o bonde da história!

Ilustração do Iº cenário
“Houve uma época em que eu sonhei com uma Igreja na pobreza e na humildade, que não dependesse das potências deste mundo. Uma Igreja que desse espaço para as pessoas que pensam mais além. Uma Igreja que transmitisse valor, especialmente a quem se sente pequeno ou pecador. Uma Igreja jovem. Hoje já não tenho esses sonhos. Depois dos 75 anos decidi rezar pela Igreja. (Cardeal Carlo Maria Martini)

ANOTAÇÕES PARA UMA ANÁLISE DE CONJUNTURA ECLESIAL II

II Cenário
Há outros setores dentro da igreja que percebem que é urgente aprender a dialogar com essa modernidade líquida, com as suas contradições e desafios e procuram fazê-lo. Sabem que não é satanizando o inédito nem suas mutações que se avança e se resolvem impasses, nem se refugiando num passado idealizado e a-histórico que se constroem novas identidades. Esses setores eclesiais procuram se inserir ativa e inteligentemente nessa macro-sociedade mutante, atacando problemas, se engajando nas instâncias sociais e políticas com ardor, - embora nem sempre à altura-, mas se sentem amarrados e condicionados por estruturas e metodologias consolidadas, pesadas e inadequadas. Sentem demais o peso e as pressões institucionais (administração do templo, dos sacramentos, das práticas litúrgicas, aplicação rigorosa de normas canônicas e preceitos ...), das formas de coação moral que existem interna e externamente à igreja, dos problemas difusos e não conseguem levam o diálogo e a inovação ousada até as últimas conseqüências. A maioria prefere se adequar, administrar o dia-a-dia, esconde a moeda que recebeu. Fazem a experiência de se sentir deslocados, incompletos, angustiados, às vezes ineficientes... Muitos também, abandonam, desistem, têm a sensação de viver num eterno desgaste, de não avançar, de estar num permanente estado de imobilidade. É um cenário eclesial onde se dá um vácuo de liderança moral, carismática e mobilizadora com quem as pessoas possam se identificar e motivar.
Ilustração do II cenário
"O senhor recebeu alguma pressão para não publicar o livro? - Quando o texto estava pronto, uma cópia foi tirada do meu computador sem minha autorização indo parar nas mãos do núncio apostólico, dom Lorenzo Baldisseri, que pediu à Editora Paulus para não publicar o trabalho. O livro está saindo por outra editora, a Olho d'Água. Gozando de plena liberdade, agora posso elogiar ou criticar também autoridades eclesiásticas sem considerar cargos ou pessoas". (Dom Clemente Isnard, bispo aposentado, ex-vice presidente da CNBB, padre conciliar, sobre o livro que lançou recenetemente, em que defende o sacerdócio das mulheres, fim do celibato obrigaório, escolha democrática dos bispos...)

ANOTAÇÕES PARA UMA ANÁLISE DE CONJUNTURA ECLESIAL III


III Cenário
Há uma terceira postura/tendência que vislumbro, e um conseqüente possível cenário a ser construído ou aprofundado, e que está presente, - embora de forma minoritária, - em alguns poucos setores (pessoas, grupos) da igreja. É a postura daqueles que na verdadeira liberdade dos filhos e filhas de Deus, não se apegam a cargos, nem se deixam condicionar por ambições de carreira, nem estão preocupados com a administração eficiente da paróquia, nem com as disposições da doutrina da fé ou com o rigor litúrgico, nem com a pastoral do dízimo....Mas em sintonia com o espírito profético de Jesus de Nazaré se expõem, denunciam abusos internos e externos, criam comunidades fraternas, igualitárias, horizontais, rompem com falsos pudores litúrgicos e teológicos e se colocam a serviço do reino/humanidade. O reino/humanidade dos direitos à vida de todas as pessoas, mas principalmente das vítimas, dos impuros, dos afastados, dos não dignos, dos ameaçados, dos “sem”, ou seja, daquela parcela de humanidade que não freqüenta os suntuosos templos e não participa das catequeses e missas. Alguns conseguem fazê-lo sistematicamente, com coragem, arcando as conseqüências disso (ameaças, difamação, calúnias, isolamento institucional, repressão disciplinar, anátemas institucionais...) outros o fazem na qualidade de aposentados ou próximos ao pôr do sol de sua vida.....pois na “ativa” não tiveram liberdade para fazê-lo (há leigos, padres, bispos, comunidades inteiras...è o caso de alguns prelados.....) Acredito ser esse, hoje, o cenário que temos que construir para o futuro da igreja e da humanidade, até como forma de reconstruir novas identidades e relações em que muitos haverão de se espelhar.

Ilustração do III cenário
“Devemos afirmar que o mais urgente (para a igreja) é a defesa ou a proclamação da dignidade da pessoa humana, a proclamação dos direitos fundamentais do homem...” (Dom Aloísio Lorscheider)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Eduardo Galeano: continua a surpreender!

Vou reproduzir, parcialmente, um artigo de Eduardo Galeano que me enviaram...Vale a pena ler!
"Nossa região é o reino dos paradoxos.Brasil, peguemos alguns casos:Paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e pela poliomielite, nascido para a infelicidade, foi o jogador que mais alegria deu em toda a história do futebol;e, paradoxalmente, já completou cem anos de idade Oscar Niemeyer, que é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.
Peguemos o caso da Bolívia: em 1978, cinco mulheres enfrentaram uma ditadura militar.Paradoxalmente, toda Bolívia riu delas quando iniciaram sua greve de fome.Paradoxalmente, toda Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.Eu conheci uma dessas cinco lutadoras. Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de operários das minas, todos homens, ela se levantou e fez todos se calarem.- Quero lhes dizer isto - disse. Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo, e o levamos dentro de nós.E anos depois reencontrei Domitila em Estocolmo. Expulsa da Bolívia, foi ao exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, cuja liberdade admirava, mas eles lhe davam pena, tão solitários que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E lhes dava conselhos:- Não sejam bobos – dizia a eles. Nós, lá na Bolívia, nos juntamos. Ainda que seja para lutar, nos unimos.
E quanta razão tinha.Porque eu digo: Existem os dentes, e não se juntam na boca? Existem os dedos, e não se juntam na mão?Juntamos: e não apenas para defender o preço de nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor de nossos direitos. Estão juntos, embora de vez em quando simulem rixas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os demais. Sua riqueza come pobreza, e sua arrogância come medo. Há bem pouco tempo, peguemos este caso, a Europa aprovou a lei que converte os imigrantes em criminosos. Paradoxo dos paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta nos narizes dos invadidos, quando retribuem a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a ser comidos e viver com medo.Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas, somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos adestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não nos querermos, a cuspir no espelho, a copiar em lugar de criar."