Repete-se ad nauseam que vivemos ‘tempos estranhos’, e não sem razões. Poder-se-ia dizer, contudo, que sempre houve épocas em que até para uma minguada minoria de sábios nunca foi fácil decifrar o conjunto de acontecimentos em que as sociedades se encontravam mergulhadas. Algo paradoxal: afinal, aqueles setores de uma determinada sociedade que eram considerados os atores e os protagonistas de determinados acontecimentos que acabavam condicionando a totalidade da sociedade, eram também eles, por sua vez, simultaneamente, catapultados nas consequências-resultados que de lá emergiam, de forma confusa e indecifrável. Em outras palavras, parece que em determinados períodos históricos uma determinada sociedade acaba se descobrindo perdida, desnorteada, percorrendo sinuosas e obscuras vias onde parece não mais existirem saídas e nem entradas, pois uma pode ser confundida com a outra, e o suposto ponto de saída é confundido com o ponto anterior. Tem-se a impressão, hoje, de sermos tantas pequenas cobaias que correm apressada e loucamente num labirinto autoprojetado onde perdemos o mapa-projeto original que indica a única saída principal, sob pena de correr à toa e de permanecermos, paradoxalmente, num mesmo ou similar lugar.
Imaginemos, por um instante a ansiedade e o
progressivo desespero que começam a tomar de conta daquelas
criaturas enjauladas naquele labirinto em que, após inúmeras tentativas, não
acham a única saída salvadora para todos. Começam a crescer os níveis de
agressividade de uns contra outros em que se esvai, rapidamente, a lucidez necessária para parar,
se reorganizar, memorizar caminhos já percorridos, colocar sinalizações para
tanto para evitar correr em vão como baratas tontas. O absurdo é que é isso mesmo
que aquelas cobaias acabaram se tornando: seres atordoados, dominados pelo medo
e o desespero, com mentes entorpecidas, incapazes de repensar suas estratégias
de saída. Haverá, enfim, uma delas que. afinal, assumirá com a força e com a sua persuasão
ilusória a condução da totalidade das cobaias, sob a promessa de conduzi-las para uma saída definitiva que, de fato,
não existe. Levará as poucas cobaias que ainda sobrevivem, após sangrentas lutas
fratricidas, a se submeterem e a seguir a líder que, fatalmente, recomeçará a
percorrer mais caminhos, já percorridos, mas que já não consegue mais
reconhecer. É a perdição e a inanição que precedem e autodestruição.
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