sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Lula venceu e Flávio Bolsonaro fugiu. Artigo de Valerio Arcary

 Lula venceu e Flávio Bolsonaro fugiu. A história acelerou, abruptamente. Nada será como antes. A virada era difícil, e até improvável, mas se confirmou, mais uma vez, que nada é impossível quando a classe trabalhadora se coloca em movimento, inspirando a maioria dos oprimidos, como nas Diretas Já, em 1984, e em 1992 na campanha Fora Collor.

Não foi somente uma campanha eleitoral, embora tudo dependesse do desfecho nas urnas. Aconteceu um levante cívico-eleitoral democrático com impulso revolucionário. Talvez uma forma de “revolução democrática” do século XXI, diante da ameaça fascista. A surpresa do desfecho do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula, e o perigo real e imediato da extrema-direita conquistar um “poder total” nas instituições, foi o gatilho que disparou um alerta geral. O que teria acontecido, se Lula tivesse chegado em primeiro lugar? Não podemos saber. Milhões de pessoas, até então, politicamente inativas teriam despertado para uma militância febril e arrebatadora? Os estudantes teriam saído das universidades para ser a faísca que arrastou mulheres e homens, de distintas gerações, para um ativismo frenético nas ruas e redes? Mas não foi somente o medo. O medo somente não mobiliza. Somente o medo conduz ao desespero. A outra força motriz do ascenso, tão ou mais importante, foi a confiança que era possível vencer. O nome desta fé é a esperança. Em 2018, tivemos o momento tragédia com a eleição de Bolsonaro pai. Em 2026, o momento comédia com a fuga em pânico de Bolsonaro filho.

O que é certo e mais importante é que ficou demonstrado, de forma irrefutável, a força social de choque da classe trabalhadora brasileira, o maior proletariado da América Latina. O Brasil viveu, nas três semanas antes do segundo turno das eleições presidenciais, uma experiência rara, avassaladora e inusitada de mobilização política de massas. A vitória eleitoral de Lula no domingo 25 de outubro é incomparável e não tem precedentes. A virada teve um “empurrão revolucionário”, algo novo, e foi garantida pelo engajamento de uma vanguarda de milhões. O empoderamento da irrupção de massas em uma onda vermelha que ocupou as ruas e tomou as redes sociais foi uma “escola”. As pessoas descobriram que, quando se unem na luta, têm uma força de impacto que é arrasadora. Da Avenida Paulista à praia de Copacabana, de Porto Alegre a Belém, de Salvador a Brasília, de Belo Horizonte a Recife, de Curitiba a Fortaleza, por todas as capitais, mas também em cidade médias e mesmo pequenas, ocorreram as maiores manifestações da história.

Foram atos de esquerda, de uma esquerda que é diversa e plural, em que se ovacionava Lula. A avalanche mudou a relação social e política de forças: estivemos durante dez anos em uma situação reacionária e defensiva. As “placas tectônicas” da estrutura da sociedade se moveram. Estamos agora em ofensiva, e abriu-se uma situação transitória. Mas nada está garantido de antemão. Tudo está em disputa. Vai depender, sobretudo de dois fatores:

(i) da capacidade de iniciativa, da ousadia e determinação do governo Lula;

(ii) da manutenção da disposição de luta popular. A “onda vermelha’ pode morrer na praia.

A construção de uma segunda “onda” será, portanto, o desafio estratégico.

A extrema direita sofreu a maior derrota de sempre e está agora, transitoriamente, acéfala. Mas vai se reorganizar. Além do apoio da Casa Branca tem posições institucionais nos governos estaduais e no Congresso mais fortes do que antes. Se as massas recuarem, pelas mais diversas razões, pode se estabilizar uma situação de impasse na luta de classes. Se mantiverem a confiança de que é necessário ir além pode se abrir uma dinâmica de radicalização pré-revolucionária. Tanto a evolução do governo, se irá avançar ou pactuar, como a evolução da força das ruas, se irá se manter, e crescer para novas formas de democracia direta e auto-organização, mais “leves e rápidas”, embriões de poder popular ou não, definirão nosso destino.

Aprender com a experiência da “onda vermelha” será crucial para o futuro da esquerda. Este é uma daqueles momentos em que devemos recorrer ao bom método do “empirismo leninista”. Isso significa estudar, minuciosa e pacientemente, o que aconteceu, porque foi inesperado e inédito, surpreendente e colossal. Nada foi tão decisivo como o impulso de luta ininterrupta e permanente, todos os dias.

 

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