quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A crise financeira e o silêncio da igreja hierárquica

Recebi este artigo e o repasso, também porque José Maria Castillo foi meu professor em Granada em 1978-79 e o considero um teólógo extremamente preparado e sério, além de amar a igreja e a humanidade! Boa leitura!
Chama a atenção o fato de que as autoridades eclesiásticas falem tanto de algumas coisas, enquanto sobre outras questões muito importantes para as pessoas, como é o caso da crise econômica, não digam nenhuma palavra.
A opinião é de José María Castillo, teólogo espanhol, publicado na página eletrônica Adista, 27-10-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Naturalmente, é arriscado afirmar que o papa, os cardeais e os bispos, tantos como são, não tenham dito nada com respeito a um tema do qual o mundo inteiro fala com preocupação e angústia. Não há dúvidas de que o papa e os bispos tenham falado a respeito disso. Mas o fato é que a opinião pública sabe perfeitamente aquilo que a hierarquia pensa e diz a respeito do aborto, da eutanásia, do divórcio, da homossexualidade, do uso de contraceptivos, do ensino da educação à cidadania (matéria introduzida por Zapatero e contestada pelos bispos espanhóis) etc, enquanto as pessoas não têm nenhuma idéia do que os bispos pensam a respeito da crise do sistema financeiro, da quebra dos bancos, do aumento dos preços, do desemprego, dos empréstimos subprime, da ganância que, segundo o Comissário dos Assuntos Econômicos da União Européia, Joaquin Almunia, está na raiz dessa crise tão profunda e obscura e de tal gravidade.
É verdade as questões de ordem econômica pressupõe conhecimentos técnicos que não estão ao alcance de todos, nem dos bispos que, supõe-se, receberam a formação e a preparação necessárias para dizer, como pastores, aquilo que os fiéis devem pensar com relação aos seus problemas de vida e de consciência. Estamos de acordo sobre o fato de que são os economistas que falam de economia. Mas, se esse critério é correto, deve-se dizer com a mesma razão que devem ser os biólogos que devem falar de biologia. Por que os bispos falam com tanta certeza sobre questões como as células-tronco, o término da vida, os experimentos científicos em embriões ou a fecundação in vitro, se a maior parte dos bispos sabe menos ainda de biologia de quanto pode saber de economia?
Sinceramente, suspeito que o silêncio dos bispos sobre temas econômicos não é devido à ignorância, mas a outras motivações mais obscuras. Por que digo isso? Há poucos dias, o presidente do Parlamento Europeu, Hans-Gert Poettering, dizia sem jogos de palavras: “Não se pode dar 700 bilhões (de dólares) aos bancos e esquecer-se da fome”. Porque essa incrível quantidade de dinheiro está reservada aos ricos, para que se sintam mais seguros e tranqüilos na sua condição privilegiada, enquanto, como bem sabemos, agora mesmo existem 800 milhões de seres humanos forçados a sobreviver com menos de um dólar por dia, isto é, viver em condições desumanas, expostos a uma morte próxima e assustadora.
Bem, o escândalo é que os políticos denunciam essa atrocidade da “economia canalha” (Loretta Napoleoni), enquanto aqueles que se apresentam como os representantes oficiais de Cristo na terra não levantam a própria voz contra semelhante vergonha. Naturalmente, eu não tenho soluções para a situação crítica que estamos vivendo, nem posso ser eu quem ofereça soluções. A única coisa que posso (e devo) dizer é que na Igreja abundam os funcionários e faltam os profetas. E tenho a impressão que, neste momento, para fugir da confusão em que estamos, mais importante do que a consciência dos economistas é a audácia dos profetas capaz de dizer onde se situa exatamente a cobiça que, como já disse, está na raiz do desastre que estamos sofrendo.
Todos sabemos que a Igreja denuncia a injustiça. O problema, porém, é que ela o faz utilizando uma linguagem genérica como a do presidente Bush quando falava de “justiça infinita”. Ninguém duvida das boas intenções do papa. E nem da sua grande personalidade e do seu prestígio mundial. Mas o problema é que o papa é o chefe supremo de uma instituição presente no mundo inteiro e se esforça por manter as melhores relações possíveis com os responsáveis da economia e da política de cada país. Bem, do momento em que a Igreja escolheu funcionar assim, é impossível para ela a missão profética que deve exercitar em defesa dos pobres e das pessoas mais mal-tratadas pela vida e pelos poderes deste mundo.
Quem lê com atenção os evangelhos sabe que Jesus não se comportou, frente às autoridades e aos ricos do seu tempo, como as hierarquias eclesiásticas se comportam hoje diante dos responsáveis dessa economia canalha que está levando o mundo à ruína. É evidente que as preocupações de Jesus eram muito diversas das da Igreja de hoje. Deve-se produzir uma catástrofe econômica como aquela que estamos vivendo para nos darmos conta de aonde vão os reais interesses dos “homens de religião”. Eles utilizam a linguagem da justiça e da solidariedade, que é aquilo que serve para o nosso tempo, mas não se arriscam a levantar a voz quando temem que os interesses da religião possam ser postos em perigo.
Estando assim as coisas, a conclusão é clara: a instituição religiosa está mais preocupada em assegurar a estabilidade e o bom funcionamento da religião do que se expor (com tudo aquilo que conseguir) com relação àqueles que mais sofrem nesta vida. E se essa é a conclusão lógica, o resultado é evidente: os ricos se sentem seguros, os pobres ficam imersos na sua miséria, e a religião, com os seus templos e os seus funcionários, permanece a mesma, pelo que ela se torna cada dia mais velha e sem força.
Acréscimo do autor do blog: é bom lembrar que a única afirmação pública que o papa fez diante das primeiras manifestações da crise foi a de afirmar que "só a palavra de Deus é sólida"...!!!!!????

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Eleições municipais no Maranhão: um olhar diferente

É bastante arriscado fazer um balanço-análise dos resultados das eleições municipais a partir de critérios meramente numérico-quantitativos onde prevalecem as percentagens, ou seja, o volume de votos recebidos por um determinado candidato e a quantidade de vitórias e/ou derrotas de um determinado partido, ou comparações (numéricas) com pleitos anteriores. Os números por si só, não traduzem de forma razoavelmente fiel a dinâmica do processo eleitoral e o desfecho do pleito. Uma verdadeira análise teria que fazer o esforço de resgatar e fazer emergir “os movimentos-critérios” adotados por determinados grupos de eleitores na definição do seu voto, bem como analisar as dinâmicas/métodos adotados por determinados grupos de candidatos para “conquistar” o voto dos eleitores. O cômputo final não consegue captar tudo isso. Corre-se o perigo de analisar somente o “fenômeno em si”, ou seja, o que, em última instância, aparece: os números, e não os processos que os determinam.

Posta essa premissa, atrevemo-nos, a partir de percepções, depoimentos, informações e hipóteses pessoais, a analisar o sentido-alcance do processo eleitoral municipal que ocorreu no Maranhão. Aceitamos conscientemente de fazer isto mesmo com o risco-desafio de incorrer em possíveis incoerências internas ou de sermos acusados de julgamento das intenções do eleitorado ou de levianas generalizações. O que queremos é tentar captar algumas “sinalizações” que confirmam tendências-hábitos ou que parecem apontar para algo “inédito”, mesmo que no nível micro e localizado.

“È o único dia em que estou valendo alguma coisa! Quanto me dá para votar em você?” (Frase pronunciada por um eleitor de Santa Luzia do Paruá)

Ou dito de outra forma: quem fiscaliza e pune o eleitor que se dispõe a “vender” o voto para um “candidato comprador”? Em todas as cidades visitadas no interior do Estado (07), após as eleições ouviram-se inúmeros relatos de um grande movimento de eleitores que na proximidade do pleito procuraram candidatos para negociar o voto-mandato. Parece-nos algo inédito isso. O movimento histórico que geralmente se constatava, anteriormente, dava conta de que a iniciativa para fazer trocas vantajosas com o voto dos eleitores partia sempre do candidato. Agora, talvez devido às mini-reformas eleitorais introduzidas recentemente, supostamente mais rígidas em relação ao comportamento-hábito histórico dos candidatos, é o eleitor que se sente na obrigação de não deixar passar em branco a ocasião de tirar proveito da “transação eleitoral”. Em que pesem as condicionantes e atenuantes histórico-culturais da concepção-prática “mercantilista” do voto na história desse Estado, parece-nos que as eleições municipais de 2008 representam uma nova e criativa forma local. Esta se revela não somente no fato de ludibriar a legislação eleitoral em vigor - deslocando o foco do réu tradicional, o candidato, para o do eleitor, atualmente, inimputável legalmente, - mas também desvenda a “diabólica sintonia” entre eleitor-eleito para perpetuar formas de barganhas eleitorais. Longe com isso de expressar juízo de valor, revela, antes, que o voto continua sendo uma moeda de troca super-valorizada no grande e competitivo mercado da democracia representativa.

Acabou a identidade partidária, mas se fortaleceu a cultura partidária.

À primeira vista pode soar contraditória essa afirmação. Entretanto é preciso atentar ao fato de que identidade não se confunde com cultura. Entre as duas caberia salvaguardar rigorosamente a primeira, ou seja, a identidade. Com isso queremos dizer que nos é difícil hoje em dia saber identificar uma determinada administração municipal de direita (?) ou de esquerda (?) a partir daqueles elementos tradicionalmente considerados “essenciais” e que a definem de imediato, a saber: o seu plano de governo específico, as formas próprias de participação/elaboração de prioridades, o rigor na gestão/utilização dos recursos públicos, a transparência na prestação pública das contas e outras pérolas de um “politiquês” demodée. Onde estaria hoje, por exemplo, o “ser PT”, ou o “ser PSB”, ou o “ser PMDB”... ou seja, a identidade partidária, própria e exclusiva e que a diferencia dos demais, que faz com que “ele seja ele mesmo” e não outro? E que torna um partido algo único e inimitável em sua identidade ontológica? O que parece unificar todos os candidatos são as mesmas práticas culturais de conceber o mandato, de conquistar o voto, de conseguir uma candidatura no partido (não importa qual), de ausência de empatia com as problemáticas da “urbs-cidade”... As eleições municipais recentes, no Maranhão, parecem revelar que aconteceram à margem das estratégias político-partidárias-identitárias. Responderam a projetos pessoais e/ou de grupos ansiosos em gerir fundos públicos vultosos com a relativa garantia de que eventuais crimes não seriam legal e exemplarmente punidos nem pela justiça nem pelo ignaro eleitorado. E que, ao máximo, haveria formas de constrangimentos públicos logo esquecidos por um eleitorado muito pouco interessado na ética do candidato e mais preocupado em fechar um acordo vantajoso com ele. Entretanto, não se pode ignorar que ficou definitivamente claro que não é mais suficiente para ganhar uma eleição alardear uma suposta identidade de esquerda, ou veiculando uma imagem de tocador de obra, ou de candidato honesto. Tudo isso se não for ladeado por um conjunto de práticas que comprovem a justeza de tais afirmações e, evidentemente, por uma boa dose de empatia pessoal com o eleitorado que exige ser notado e “valorizado” pelo menos durante a campanha em nada adiantaria. Sem querer subscrever o velho ditado segundo o qual “os políticos são todos farinha do mesmo saco”, não há como negar que pelas culturas administrativas adotadas no nosso Estado é impossível detectar a identidade partidária específica de cada administrador.

A "POLÍTICA" fracassou. Viva a "política".

Uma eleição política municipal, muito mais do que a federal/estadual consegue suscitar nos eleitores um intenso envolvimento emocional e paixões irrefreáveis devido também ao fato de que os interesses em jogo são mais próximos, evidentes e imediatos. Se isso parece ser algo comum principalmente nos pequenos municípios do interior do Nordeste, no Maranhão tudo isso assumiu características específicas e de caráter violento. Não estamos nos referindo unicamente aos casos nacionalmente notórios de São Mateus ou Benedito Leite em que o vandalismo alcançou níveis inéditos, mas a uma série de manifestações agressivas que ocorreram em numerosas cidades. Se à primeira vista não representam nenhuma novidade no currículo desse Estado podem manifestar, todavia, de um lado a persistência da concepção da competição na sua acepção mais negativa na política municipal (ou eu ou você, ganhador/perdedor, ...) e, do outro lado, a comprovação de que a máquina administrativa municipal e seu poder de distribuir cargos, empregos, favores, proteções continua sendo o maior motor impulsor da economia local e regenerador das relações sócio-políticas. O cidadão não “emancipado” em seus direitos fundamentais recorre à máquina política local para se sentir reconhecido, seguro e protegido em suas inúmeras fragilidades e incompletudes. Ele o faz de forma corajosa e destemida. É um cidadão que não se esconde, que não coloca a máscara. Toma partido, pois ele opta claramente em favor de um candidato e contra o outro. Só agindo assim, de forma clara, é que poderá contar com possíveis benesses por parte do eleito. Nesse sentido, política entendida como preocupação coletiva com a cidade que é de todos parece estar fadada ao fracasso a partir do processo eleitoral municipal. Entretanto, na ausência de uma cidadania emancipada, madura, as novas relações que se recriam a partir de uma eleição municipal podem dar a sensação/ilusão a determinados grupos de eleitores que eles não estão sós, abandonados, invisíveis e anônimos, mas “alguém” irá olhar para eles. Pelo menos, nem que seja por um dia, alguém se “interessou” por ele e por um curto período terão a sensação de sentirem “vencedores”. E isto basta!

sábado, 4 de outubro de 2008

Mt.21,33-43: pertence ao povo de Deus quem sabe produzir frutos de justiça

Vários setores significativos de Israel, no passado, de forma arrogante, se consideravam “o povo eleito e escolhido” diretamente por Javé. Javé, ou seja, “Aquele que está-com-o-seu-povo” devia ser adorado de forma exclusiva, pois Ele era único. Um deus ciumento que não aceitava que outros deuses sentassem ao seu lado e fossem adorados com igual piedade e submissão.
Evidentemente, tudo isso não é fruto de revelação privilegiada, nem de predileção divina, mas é expressão de uma autoconsciência de caráter coletivo, frequentemente manipulada pelos setores palacianos monárquicos interessados em exigir e manter obediência, devoção e exclusividade do povo ao deus do rei. Era claramente uma estratégia política para manter coesão social e unidade nacional. Admitir a diversidade de deuses significaria reconhecer um pluralismo de identidades e de projetos politicamente perigosos. A própria bíblia que é uma coletânea extremamente multiforme de experiências, visões, sonhos, projetos sociais e religiosos vivenciados por inúmeros e variados grupos sociais revela as suas próprias contradições. Mas isto manifesta, de forma paradoxal, que nem todos engoliam o que as classes dirigentes queriam enfiar goela abaixo.

Jesus o hebreu da Galiléia, como muitos dos seus patrícios comungava, a princípio, a idéia de que Javé havia escolhido Israel, entre outros povos, como sendo o Seu povo. Escolheu-o para ser luz, guia, exemplo a ser seguido. Ele também achava que somente “as ovelhas perdidas de Israel (e não de outros lugares!)” deviam merecer um cuidado e uma atenção especiais. Os estrangeiros, os “não israelitas” poderiam sim aceder ao grande banquete, mas só quando todo Israel fosse reunido sobre o grande monte e estivesse já sentado á mesa. Em que pese tudo isso, Jesus nunca renunciou à sua visão e consciência crítica e autocrítica resultado de sua permenente convivência com "os invisíveis" de Isarel, os "não-escolhidos". Jesus vinha percebendo em suas andanças que muitos setores de Israel se escondiam atrás da falsa segurança de se sentirem eleitos e depositários da benevolência divina, para praticarem do tipo de opressão e iniqüidade. Usavam indevidamente o nome de Javé e a sua suposta proteção-predileção para “não produzir frutos de justiça”.

“Vocês acham que vão escapar da ira divina só porque vocês se acham filhos de Abraão (escolhidos)? Se for só por causa disso, eu vos digo que Deus pode fazer filhos de Abraão também dessas pedras. Mas se vocês não produzirem frutos de justiça o machado já está posto na sua raiz e vocês todos irão ser cortados” (Lc. 3,8-9) Jesus, como os grandes profetas críticos e destemidos, na parábola desse domingo, mais uma vez, desnuda a falsa prática religiosa, detona a arrogante autoconvicção de pertença ao povo eleito, desmascara a hipocrisia que se dá mediante os cultos apaziguadores da consciência e da responsabilidade social.
Sem meio-termo Jesus proclama o novo critério de pertença divina, ou seja, a capacidade de produzir frutos ao cuidar com amor, dedicação, responsabilidade e competência da vinha/ vida/humanidade/sociedade/universo/Reino de Deus. Ao fazer isto, Jesus sentencia, - sem direito a novo recurso, - o fim da suposta predileção divina a partir de critérios de nacionalidade, de pertença/freqüência religiosa/sacramental, cultural, opção ideológica/sexual, etc. subordinando-a ao critério de produção de frutos. Ou seja, a prática da verdadeira caridade, do serviço gratuito em favor da vida. “Por isso eu vos afirmo que o Reino de Deus vos é tirado (futuro próximo e não remoto) e confiado a um “povo-grupo” que produza seus frutos” (Mt. 21,43).

Bom domingo e boa votação.... se é que temos ainda gente/políticos habilitados para cuidar da ...vinha/sociedade produzindo frutos de justiça e equidade!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A crise “americana”: crise universal de valores

Há algo que deveria nos incomodar na assim chamada “crise financeira americana”. Parece existir um acordo tácito entre os meios de comunicação, os analistas e comentaristas econômicos para que a crise seja interpretada como uma crise meramente financeira, de caráter especulativo, e circunscrita ao território americano. Ou seja, querem nos dar a entender que é uma crise intimamente ligada à falta de pagamentos, insolvência, falta de credibilidade circunstancial dos mercados, duvidosa administração bancária, falta de liquidez e outras pérolas do “economês. As próprias medidas político-econômicas que vêm sendo debatidas para debelar ou amenizar os efeitos desse colapso de incalculáveis proporções parecem confirmar tudo isso. Há algo que cheira mal nisso tudo.
A atual crise não é somente financeiro-especulativa, ligada a investimentos mal calculados ou a inversões repentinas de tendência dos mercados. Ela desmascara a face real do comportamento social e humano global: o anseio desmedido, quase neurótico, de consumir, de obter sempre mais dinheiro disponível para comprar mais mercadorias e bens de todo gênero. A crise atual é como um termômetro que nos alerta de forma brutal que a febre consumista chegou ao ápice e deve ser detida. Já num passado recente havia quem alertasse sobre os perigos reais de “estouro da bolha” especulativa e que suas conseqüências seriam caóticas para todos.
As agências financeiras e os bancos conhecem a dependência servil que a grande massa humana tem com relação ao dinheiro e ao seu poder. Sabem os níveis de idolatria que existem na alma humana diante da mercadoria, o seu fascínio e poder de sedução. Facilitaram créditos, estimularam o deslumbramento humano perante a mercadoria e distorceram as perspectivas de posse e de bem-estar dos seus clientes. Estes acabaram entrando num vórtice de consumo de bens, na maioria das vezes fúteis, mesmo sem ter condições reais de adquiri-los, e adotando o mesmo objetivo que os bancos, ou seja, a perspectiva de ganhar mais ainda. Bancos e clientes se aliaram num jogo suicida em que um precisava do outro para lucrar, ganhar e possuir sempre mais. Um tentando iludir o outro de que os dois poderiam sair ganhando infinitamente sem limites. Tudo isso ruiu fragorosamente.

Isto não ocorre somente na terra do tio Sam. Isto não mexe só com o bolso das pessoas e com sua capacidade administrativa. Mexe com o nosso universo de valores. Mexe com a nossa capacidade de atender a necessidades essenciais e de fixar prioridades que dêem sentido à nossa vida. Mexe com a nossa autonomia e independência perante o poder sedutor e, ás vezes, irresistível, do “ídolo dinheiro-mamona” que exige submissão e veneração total. A crise “americana” é global e existencial porque ela desnudou definitivamente a alma humana. Arrancou-nos a máscara e tirou o que nos encobria, expondo definitivamente para nós mesmos a nossa nudez-fragilidade, cheia das rugas da ambição e da ganância que escraviza. A crise não será superada somente com a injeção de centenas de bilhões de dólares entregues a instituições financeiras com o intuito de sanear os mercados abalados e readquirirem credibilidade. Dinheiro, diga-se de passagem, que será mais uma vez desembolsado pelas vítimas da idolatria consumista e gananciosa.
A crise poderá significar uma lição de vida se a partir dela a humanidade começar a fazer escolhas que tenham em consideração a sobriedade de vida, o respeito pelo ambiente e as legítimas aspirações de milhões de “sem-cartão-de-crédito” que anelam por equidade e justiça social.

sábado, 27 de setembro de 2008

Mt 21,28-32: os "sem palavra" que fazem a vontade do Pai


Parece ter se diluído no tempo e no espaço o poder da palavra. A palavra como expressão máxima do ser, da identidade de uma pessoa. Parece coisa relegada aos tempos “das sociedades tribais” e da “tradição oral,” em que a palavra conservava e transmitia o tesouro da memória coletiva e da identidade de um povo. O próprio líder era escolhido a partir de sua capacidade de falar, de pronunciar palavras que tocassem os sentimentos e os sonhos das pessoas. Ele detinha o poder da palavra, mais do que o das armas. Houve época em que “a palavra dada” era como que entregar si mesmo ao outro, a própria credibilidade, honra e integridade moral. Dar a palavra era assumir responsabilidade pessoal e o compromisso intransferível de cumprir o prometido/combinado. No Gênesis lemos que o próprio Deus “cria” mediante a palavra. “Deus disse” e as coisas tomam corpo e vida. A palavra sempre foi ladeada pelo seu ato-ação correspondente. Uma não existia sem a outra.

Hoje, muito pouco de tudo isso parece ter sentido para os dominadores da escrita, do protocolo, do registro, do cartório. Poucos confiam na pessoa que só empresta a sua palavra. Exige-se muito mais que isso. A palavra não deixou de exercer um grande fascínio e sedução, mas ela, freqüentemente, é usada para se disfarçar e ocultar intenções, projetos, sonhos, ambições. Fazem uso da palavra para renegá-la logo em seguida com gestos e ações que são antagônicas a ela. Na modernidade instaurou-se o definitivo divórcio entre palavra e o seu significante concreto. Um divórcio de alto teor destrutivo por ser também o resultado de uma progressiva falta de ética e, além disso, de cunho individualista.
No evangelho desse domingo Jesus, observador atento e irônico, procura desmascarar os arrogantes fanfarrões “da palavra dada”. Aqueles que utilizam o escudo da palavra, da promessa, da fidelidade e obediência às normas e ritos para esvaziá-la com ações contraditórias. O fascínio sedutor da palavra é utilizado pelos mestres da lei, os escribas, os fariseus lacaios das normas e fórmulas ritualísticas e os sacerdotes lambe-altares para ocultar e negar direitos, justiça e fraternidade. São pessoas que vivem de aparências e formalidades e acreditam que só isto basta para conquistar prestígio e reconhecimento social e, claramente, para conseguir manipular, distorcer, convencer os “sem palavra”. Jesus desmonta através da parábola dos dois irmãos a suposta segurança religiosa e social em que estes se haviam entrincheirado ao sustentar que são somente os que “praticam, que fazem, que cumprem” que estão em sintonia com o Reino. Não aquele que DIZ, mas aquele que FAZ é que entra na dinâmica da construção da humanidade que Deus quer.

O alvo era claro e direto: não os lacaios das normas religiosas e rituais, e sim os pecadores, as prostitutas, os publicanos, ou seja, os que diziam não às normas de pureza ritual, - mas aderiam ao projeto de Jesus - que são os que cumprem a vontade do Pai. Jesus não quer demonizar a palavra-rito em detrimento de um suposto fazer salvador, mas de restabelecer o primado da coerência, da integridade ética, da ligação indissociável entre fé e vida e pondo fim a toda hipocrisia e duplicidade.

Mais antes uma ortopraxia que defende a vida, a solidariedade e o direito, do que uma ortodoxia vazia de valores, gestos e ações que apontam para vida em plenitude. Bom domingo!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Mt.20,1-16: Um Jesus paradoxalmente....justo!

Jesus revoluciona completamente o conceito de justiça que vigorava na época. Ele com a parábola hodierna coloca em xeque a teoria da retribuição e a justiça distributivista. O conceito de justiça ainda hoje é entendido na sua acepção distributivista, ou seja, dar a cada um o seu. Imaginemos, porém, por um instante que uma pessoa não tenha nada. Ser justo com ela seria não dar nada, pois nada tem! Ou, se trabalhou 3 horas, pagar-se-ia o correspondente de 3 horas. Mas quem define o valor de uma hora de trabalho? O patrão? E este daria a “cada um o seu”? Se essa é por demais uma definição simplista, pensemos, então, naquela circunstância hipotética em que temos um bolo e este deve ser distribuído pelo número de pessoas presentes. Quais os critérios a serem adotados para uma justa divisão-distribuição do bolo? Uma resposta óbvia é: dividir o bolo em 10 partes rigorosamente iguais. Ao proceder dessa forma estamos caindo mais uma vez na armadilha da justiça distributiva. De repente algum dos presentes tem mais fome que outro e precise de mais bolo. Ou pode haver algum diabético que renuncie ao seu pedaço em favor de outro. Essa prática de justiça não tem em consideração as necessidades dos presentes. Eles seriam todos iguais, o que não existe!
Podemos, também, afirmar que vamos dar uma parte do bolo somente àqueles que agiram corretamente, ou seja, a quem mereceu, a quem é digno. É a justiça da retribuição, a que vigorava amplamente na prática teocrático-moralista dos fariseus e saduceus. Mas quem decide quem merece, e quem é digno? E quem decide o tamanho do pedaço de bolo a ser dado?
Jesus através da narração da parábola do pai de família que sai para contratar operários, de forma paradoxal questiona as visões-práticas de justiça em vigor e propõe a aplicação da justiça da gratuidade. De um lado os que se achavam puros, e portanto, merecedores de mais reconhecimento, e do outro, os impuros, os pecadores, merecedores só de penalidades. Ao agir com magnanimidade e generosidade paradoxal Jesus adota critérios de justiça que vão além da mera justiça formal, humana, distributiva. Sem negar esta, Ele ousa superá-la declarando-a inadequada para expressar a prática do Pai.
Jesus, como os grandes pensadores/pedagogos da humanidade coloca nas nossas mentes o vírus da suspeita. Será que temos que aceitar passivamente, de forma a-crítica tudo o que nos ensinaram sobre justiça? Será que temos que repetir o senso comum daqueles que acham cômodo “dar a cada um o seu”, mas alimentando dentro de si a convicção que, na realidade, tudo é dele e que ao outro só lhe cabem as migalhas? Ser justo para Jesus é dar muito mais a quem precisa mais, sem se importar se ele é moralçmente digno ou se chegou na última hora, ou seja, se só agora descobriu o sentido da sua vida.
Um abraço em todos-as. Hoje estarei viajando para mais uma tournée entre os Guajajara de Colônia e Bananal. Bom final de semana para todos-as.

Crise financeira nos EUA: quem muito quer, nada segura!

Quebrou mais um banco nos Estados Unidos of América, o país mais rico do planeta: o Lehman Brothers. Era considerado o quarto maior banco dos EUA. Como sempre ocorre com essas instituições financeiras históricas na hora do aperreio começam a chorar junto ao governo federal ou ao Banco Central pedindo socorro. Claro, eles motivam que não é para salvar os seus lucros, mas para não prejudicar os cidadãos e cidadãs que depositaram no banco o fruto do seu suor. Os próprios bancos brasileiros haviam feito a mesma coisa na época do FHC e este os socorreu, claro, criando un fundo de mais de 30 bilhões de reais! Ajudou a filha dele casada com um banqueiro, o Cacciola, agora preso, depois de ter fugido a Itália e muitos outros. Mesmo assim, muitos deles se estreparam.... menos os donos, claro!
São banqueiros, empresários, economistas que vivem a teorizar e a defender o encolhimento (ausência) do Estado na vida das pessoas e nos negócios, que correm justamente ao pai-estado quando a sua incompetência e a sua sede de ganância turva de tal forma o bom senso e acabam metendo os pés pelas mãos. Desta vez, o Lehman Brothers foi entregue ao seu destino: vai ter que vender partes do banco para o britânico Barclays. O mesmo Banco Central dos EUA (FED), porém, que negou ajuda ao Lehman vai conceder um empréstimo da bagatela de 85 bilhões de dólares a uma grande seguradora (AIG) também ela em crise profunda e à beira da falência. Com certeza deve ter gente graúda do governo federal como sócio na AIG...
Mas é bom se perguntar: por que toda essa crise? Simples! Os inteligentes administradores dos maiores bancos dos EUA com o intuito de lucrar sempre mais, ao ver que a taxa de juros estava inferior a 1% ao ano (alguns anos atrás!) começaram a emprestar dinheiro a um número sempre maior de cidadãos que queriam aplicar em imóveis. Estes, por sua vez, investiam em imóveis achando que seria um bom investimento para eles no futuro. Portanto, esses também de mente turva atrás de mais grana. Os bancos deviam saber que essas pessoas eram formadas por “péssimos pagadores” e por pessoas de “renda duvidosa”. Mesmo assim, sem pedir garantias e comprovações, a perspectiva de negócios lucrativos falou mais alto. Não deu outra: o investimento nos imóveis não se demonstrou nem um pouco lucrativo, os que pediram empréstimos não estão pagando porque não têm condições, e os bancos ao não receber a grana que emprestaram estão ficando sem ela. Continua valendo agora mais do que nunca o velho ditado italiano” Chi molto vuole, nulla stringe!”, ou seja, “quem muito quer, nada segura!”