terça-feira, 27 de setembro de 2011

Falando em educação escolar indígena......

Educação escolar indígena, a história de uma farsa!
Desalentador é o mínimo que se pode dizer sobre a questão da educação escolar indígena no Estado. Continua a mesma irresponsabilidade de sempre. Os professores das escolas indígenas não recebem seus vencimentos há mais de quatro meses. E não há nenhuma perspectiva imediata que o problema seja solucionado em tempos curtos. Já virou caso nacional. E pensar que este ano não teve ‘seletivo’ o que teria acarretado mais atrasos e complicações burocráticas! Entra ano e sai ano, entra governo e sai governo, aqui no Maranhão não se muda a tradição. Como em time que ‘ganha’ não se mexe! Educação escolar indígena é um mero e espinhoso detalhe da vida administrativa pública. Os índios, um baita problema!

Merenda escolar para alimentar os cofres...
Como se isso não bastasse continua a novela da distribuição da merenda escolar. Sendo que é o Estado que tem essa incumbência – pelo menos por enquanto, - tenta, naturalmente, evitar a mediação de ‘indígenas espertos’ que poderiam ‘meter a mão’. Só os ingênuos acreditam que utilizando estruturas e pessoas das escolas estaduais próximas das aldeias, como vem acontecendo, evitaria o desvio já consagrado. Nas andanças desses dias só ouvi relatos de merenda que chega pela metade, e sem nenhum respeito pelo ‘cardápio indígena’. Mesmo assim, desejamos sucesso....mas não me perguntem para quem!

Transporte escolar, a verdadeira mamata!
Completando o quadro, lá vem a mamata do transporte escolar indígena. Aqui, Deus nos perdoe, são raros os ‘barra-limpa’! Há um verdadeiro conluio entre setores do Estado e algumas máfias indígenas para multiplicar o transporte escolar sem necessidade e inchar as verbas para tanto. O pior é que todo mundo sabe, e todos afirmam que estão com as mãos atadas. O Estado teme os poderosos indígenas que monopolizam o setor, mas dentro do próprio Estado há uma clara tendência em fazer corpo mole porque há gente pegando mais do que uma ‘pontinha’. Exagero! Estou doído para que haja uma CPI dos transportes escolares! Pelo menos viria à tona algumas sujeiras....pois, afinal, tudo ficaria como está, claro!

sábado, 24 de setembro de 2011

A vontade do Pai só na coerência de vida e não nas formalidades ostensivas (Mt.21,28-32)

Um círculo perfeito, parecido ao astro maior que ilumina e aquece a Gaia/terra. Um círculo que irradia equilíbrio e luz aos numerosos caminhos, verdadeiros raios, que das casas – dispostas em forma circular - convergem ao pátio central. Ao núcleo onde os homens se reúnem. No ‘espaço sagrado’ onde encontram luz e sabedoria para debater, avaliar, planejar, e decidir. Nesse espaço central de convergência e de irradiação ao mesmo tempo, os homens partilham também bens e saberes. Trocam e emprestam. Mediam conflitos e ‘conspiram’ contra quem ameaça a harmonia do povo Kanela. É a aldeia Escalvado dos índios Kanela Ramkokamekrã, municípío de Fernando Falcão, Maranhão. Cerca de 2.000 pessoas vivendo na mesma aldeia. Algo espantoso! Ontem, os visitei com um amigo sacerdote de Barra do Corda. Hoje, pensei neles ao refletir sobre a narração evangélica hodierna.

Eis aqui, pensei, um povo que nunca disse ‘sim’ ao convite a aderir a uma igreja cristã. A adotar os seus preceitos e dogmas. A adentrar em seus espaços sagrados para adorar um deus que, afinal, já estava no templo imenso do seu coração e da natureza que os hospeda e protege. Um povo que jamais disse ‘não’ ao convite de reproduzir em suas relações sociais e religiosas a solidariedade, a partilha e a justa distribuição dos bens, a atenção ao mais frágil, e a capacidade de construir junto ao outro. Para re-construir, no seu cotidiano, mais ‘sóis’ e mais luz solar para combater as espessas trevas que estão a se abater sobre eles. Sol e lua, noite e dia, luz e sombra, sim e não, constituem o conteúdo dos mitos e da prática desses povos macro-jê, a quem os Kanela pertencem. Eles expressam com seus corpos, com suas estruturas físicas, com suas complexas organizações e subdivisões as dinâmicas da vida: vida e morte, essência e aparência, alegria e dor. Um evangelho da vida não escrito, não dito, não falado. Mas manifesto pelos gestos, pelas opções, pelo ser/agir. Tal como a parábola de hoje.
No evangelho de hoje, com efeito, Jesus caracteriza as atitudes de quem compreendeu a essência da vida, e de quem se move condicionado pelas aparências. De quem age por coerência e fidelidade a um projeto de vida, e a um conjunto de valores; e de quem se preocupa com formalidades e aparências, achando que nelas está a sua segurança e realização. Jesus, na prática, desenvolve as mesmas posturas dos ‘arrogantes operários’ da ‘primeira hora’ da narração de domingo passado. Achavam que por ter aderido desde cedo ao convite de Deus tinham mais direitos que os da ‘última hora’. Hoje, Jesus nos diz que essa adesão ‘inicial’ que alguns ostentam pode ser só aparente. Da boca para fora. Não como resultado de uma opção livre e consciente, e sim como formalidade que em nada transforma. Ao passo que outros da ‘última hora, aparentemente parecem negar e rejeitar o convite a construir o reinado de Deus, mas o acolhem e a ele aderem na prática, na essência. Ou seja, nas suas opções éticas, no seu agir real, histórico.

São esses ‘filhos rebeldes’ que parecem ignorar a vontade do Pai que ajudam os ‘filhos aparentemente obedientes’ a compreender a vontade de Pai. Esta, de fato, não está num conjunto de formalidades e de belas profissões públicas de fé, ou na obediência ostensiva a preceitos e normas cultuais. Mas no cumprimento efetivo da vontade do Pai: proteger e zelar a sua vinha/reinado, construir nela mais luz. Abrir novos raios/caminhos para que possa convergir sempre mais gente, e com mais intensidade, ao núcleo/pátio onde se vive e se partilha sabedoria e fraternidade.

 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Indígena Krepum Kateyê é assassinado em Itaipava do Grajaú

Domingo, 18, por volta das 23h o indígena Solenilson Timbira, da Nação Krepum Kateyê, foi assassinado num bar da cidade de Itaipava do Grajaú. O mesmo envolveu-se numa discussão com um não índio, de nome Valdenir Calixto, de uns 30 anos, residente em Barra do Corda. Solenilson apossou-se de uma faca, contudo, não desferiu nenhum golpe. O não índio, por sua vez, sacou de um revolver e atirou em Solenilson, que teve morte instantânea. O assassino fugiu numa moto. No momento havia apenas um policial na delegacia da cidade e alegou não ter condições de sair à procura do assassino, e sequer elaborou o Boletim de Ocorrência. Solenilson foi enterrado na aldeia Toco Preto, Terra Indígena Geralda Toco Preto, a 30 km de Itaipava do Grajaú. Era casado e pai de quatro crianças. Lamentamos profundamente a morte deste jovem. É mais uma vítima da bebida alcoólica que tem causado grandes sofrimentos entre os povos indígenas. Quanto a justiça, esperamos que o criminoso seja punido. Há menos de um mês uma indígena Canela Ramkokamekrá foi brutalmente violentada e assassinada a pauladas, por dois não índios, num povoado de Barra do Corda. Até o momento os assassinos continuam foragidos. (Nota encaminhada pela Pastoral Indigenista Diocese de Grajaú)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Polícia investiga morte na Estrada de Ferro de Carajás


A polícia civil de Arari investiga a morte de um homem por atropelamento na Estrada de Ferro de Carajás (EFC) sob concessão da mineradora Vale, ocorrido no domingo, 18. O homem foi encontrado morto na linha férrea, próximo ao povoado de Capim –Açu, a 200 quilômetros de São Luis. De acordo com informações preliminares da polícia civil, a vitima andava pela linha férrea quando foi atropelada pelo trem.Em nota à imprensa, a Vale afirma que a convivência segura com a ferrovia depende de procedimentos simples que devem ser observados por todos, maquinistas e comunidades. No entanto, o advogado da rede Justiça nos Trilhos, Danilo Chammas, explica: "a Estrada de Ferro de Carajás é uma concessão pública, ela não é uma obra particular,uma propriedade privada. A Vale tem obrigações que vem do contrato de concessão estabelecido e das leis". Assim, para o advogado, um dos deveres que a mineradora tem é tomar todas as medidas de segurança necessárias para não acontecer qualquer tipo de acidente ao longo da ferrovia. "Se caso acontecer, a responsabilidade dela tem que ser colocada como ‘objetiva’, o que significa que não importa de quem foi a culpa, cabe a ela ressarcir todos os danos, pois foi a Vale, que detém a concessão da via férrea, que não tomou as medidas cabíveis para que acidentes não ocorressem, pois se houvesse realmente medidas tomadas por parte da empresa, esses danos não ocorreriam", elucida.


Vale mencionar, como exemplo, uma ação que tramita na 2 ª Vara Judicial do município Maranhense de Açailândia, contra a Vale, pelo atropelamento de seu trem de carga , ocorrido no km 524 da Estrada de Ferro Carajás, em fevereiro de 2008, que vitimou fatalmente Maria Lucineide Ninácio de Paula, então com 36 anos.Antes mesmo do desfecho da ação, o juiz André B. P. Santos acolheu o pedido de antecipação de tutela, determinando, em caráter liminar, que a Vale pague desde já e até o final do processo, a quantia mensal equivalente a um salário-mínimo a família.Segundo a rede Justiça nos Trilhos, a Vale, é responsável por uma série de atropelamentos ferroviários. Em 2007 foram contabilizados 23 mortos, em 2008, foram registradas nove mortes e nada menos do que 2860 acidentes. (Fonte: Marcio Zonta)

sábado, 17 de setembro de 2011

Jesus rompe com a lógica do senso comum. Inaugura o paradoxo da misericórdia e da gratuidade. (Mt.20,1-16)





Quantas vezes, ao não conseguirmos uma determinada coisa, desejamos que outros também não a tenham? Quantas vezes adotamos, de forma rígida e mesquinha, o conceito de ‘justiça’ para não dar um passo que vá além do senso comum de justiça. Para sermos mais generosos, e romper com a mera prática da ‘justiça distributiva’ em que, supostamente, cada um recebe de acordo com o que fez. Para deixar espaço à prática segundo a qual ‘quem precisa mais tem direito de receber mais’. Quantas vezes nos flagramos naquela ridícula atitude de condenar alguém que doa e perdoa só pelo gosto de doar e perdoar alguém. Achamos uma ‘injustiça’ quando nós também não nos sentimos beneficiados da mesma forma por ele. Movidos pela inveja, atacamos quem perdoa e doa, e também quem foi perdoado e recebeu gratuitamente. É justiça a que nos move ou é inveja e raiva? Por que não agradecer e ficar feliz se uma pessoa foi agraciada por alguém? Nada tirou de nós! Ao contrário, nos mostra como nós também podemos ser ousados. E romper com práticas que só servem para deixar as pessoas sempre na mesma situação. Aprender a dar chances inéditas às pessoas para que vejam um outro lado da vida. Uma dimensão que, talvez, nunca tenham conhecido antes.



As parábolas de Jesus têm uma lógica própria: a de não seguir a lógica comum. A lógica do senso comum. São, em geral, narrações paradoxais e polêmicas. Como paradoxal e polêmica é a vida, e os sentidos que lhe atribuímos! As parábolas de Jesus são, ao mesmo tempo, extremamente provocadoras. Querem suscitar nos ouvintes perguntas fundamentais: o que ele quer dizer com isto? Por que e para quem ele diz isto? A que ele está se referindo? O que está por trás do que ele fala? Ao se perguntar sobre tudo isso, o ouvinte é levado a se questionar e a responder. Ou a entrar num processo de resposta contínua. Na parábola de hoje tudo isso fica muito evidente. Na prática Jesus critica os arrogantes fariseus e escribas, os praticantes, que achavam que, – por terem trabalhado e se ‘comportado bem’ desde o início – deviam ter mais direitos de acolhida e atenção por parte de Jesus, e de Deus, do que os pecadores públicos da ‘última hora’. Os não praticantes, os convertidos da última hora. Os fariseus tinham percebido que Jesus estava introduzindo um novo critério de julgamento. Os ‘bem-comportados’ para Jesus não eram aqueles que jejuavam, celebravam, ofereciam sacrifícios desde cedo - sem, todavia, praticar a verdadeira justiça, - mas aqueles que se abriam ao convite de Jesus a entrar na ‘lógica da realeza de Deus’! Não se importando se de madrugada, ou ao meio dia, ou no entardecer da vida! Esta, que parecia ser uma ofensa à lógica comum, ao sentido comum de justiça, era a única capaz de construir um novo povo, um novo jeito de convivência humana. Ao agir dessa forma Jesus desmascara o poder da ideologia dominante que apresenta como divinas muitas posturas intolerantes, excludentes e competitivas. As posturas hipócritas de quem utiliza um falso conceito/prática de justiça para esconder a sua incapacidade de acolher e perdoar. Mais uma vez Jesus concretiza o que significa ‘os meus pensamentos, não são os vossos pensamentos’. Os pensamentos de Deus, - a lógica divina, - não são projeções humanas, frutos de interesses mesquinhos e interesseiros. De intolerâncias e invejas. Adotar a lógica divina significa assumir a lógica do perdão incondicional, da misericórdia, da generosidade sem limites. Ou seja, sermos verdadeiramente ‘humanos’!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Guarani-Kaiowá, a tragédia!

Reproduzo um artigo de Marina Silva publicado pela Folha de São Paulo no dia 16 de setembro.


Ônibus escolar lotado de crianças e adolescentes é atacado com coquetel molotov. Idoso de 72 anos morre após receber golpes na cabeça e os agressores são absolvidos de homicídio. Criança de 9 anos comete suicídio. Outra, de apenas três, morre em consequência de desnutrição - no país que é um dos celeiros do mundo - e a atenção médica só chega na hora da morte. Homens armados atacam 125 famílias, queimam suas casas feitas de lona e ferem-nos gravemente. Este último caso, longe de ser o primeiro, mas ocorrido no início deste mês, está sendo tratado pelo Ministério Público Federal como um genocídio.


Tudo isso aconteceu num único Estado, Mato Grosso do Sul. E todas as vítimas da violência foram índios da etnia guarani-kaiowá. Eis a terrível rotina de desespero e impotência sofrida por essa população, em total abandono em pleno coração do Brasil. Se fatos como os relatados tivessem acontecido com não índios, provocariam comoção nacional, chegariam ao Congresso e gerariam algum plano governamental de urgência. Mas as vítimas em questão não têm vez nem voz, não geram muitos votos. São só índios, como muitos brasileiros ainda os veem.Suas desgraças chegaram a virar notícia em alguns jornais. Mas logo foram esquecidas. A trágica realidade dos guarani-kaiowá tem piorado, até porque é tratada com incrível distanciamento pelos governos e pela sociedade.


Centenas vivem em verdadeiros campos de refugiados, em reservas pequenas demais para o tamanho de sua população. Outras centenas, entre as cercas das fazendas e à beira das estradas, vistos como resquícios indesejados de um Brasil do passado. São tratados como estrangeiros, num verdadeiro apartheid social. Relatório da Survival Internacional para o Comitê para Eliminação da Discriminação Racial da ONU 2010, com dados de 2005, aponta que 90% deles sobrevivem com cestas básicas. A expectativa de vida é de cerca de 45 anos e o índice de suicídio entre eles é 19 vezes mais alto que o nacional. Os indígenas não estão sendo beneficiados pelo impressionante desenvolvimento do país. A eles deve ser estendido o mesmo empenho que retirou tantos milhões de brasileiros da miséria. E como? Fazendo-os abandonar sua condição de indígenas? Não. Provendo-lhes terras e condições para suprir sua própria cultura e existência. Terras, há. Riqueza, também. Governo suficientemente capaz, também. O que falta? Empenho? Convicção? Falta sentido de urgência, compromisso ético e político para estender a eles os clamores por direitos humanos? Ficará vivo algum dos guarani-kaiowá para testemunhar o Brasil potência que se erguerá sobre o fim do seu mundo?

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Índio Awá-Guajá é espancado por madeireiros na terra indígena Caru, Bom Jardim





Mais uma ação de violência e desfaçatez dos madeireiros que estão a invadir e espoliar a terra indígena Awá-Guajá e Caru contra um indígena da aldeia Tiracambu, município de Bom Jardim, Maranhão. Na sexta feira passada, dia 9 de setembro, o indígena Awá-Guajá Kamayru saiu para caçar com a esposa. No meio da mata ele foi surpreendido por um grupo de madeireiros. Estes o amarraram e vendaram o seu rosto. Seqüestraram a sua arma e com ela começaram a espancá-lo com violência em várias partes do corpo, e tentaram estrangulá-lo. A esposa que estava um pouco mais afastada ao ouvir os gritos dele se aproximou, mas vendo aquela cena de agressão fugiu imediatamente temendo o pior. Alguns madeireiros deram fé da sua presença e começaram a atirar nela sem conseguir feri-la. O indígena Kamayru chegou à aldeia por volta das 19,00 h. da noite, mancando de uma pena, com vários hematomas e inchaços pelo corpo. O fato foi logo comunicado à CTL/Santa Inês e ao coordenador da Frente de Proteção etno-ambiental Awá-Guajá, Sr. Bruno, mas até o momento ninguém havia se deslocado até o local para avaliar as condições do indígena e tomar providências. Perguntamo-nos: onde está a inteligência da Polícia Federal cuja obrigação é defender o patrimônio da União e a incolumidade dos seus habitantes? Como não ter em mãos a lista dos madeireiros que atuam ilegalmente na região? Apostar unicamente em operações repressivas circunstanciais e periódicas sem solucionar na raiz as causas desses conflitos não somente aponta para a má vontade e negligência institucional, mas sinaliza algo mais.... (Fonte: Cimi/MA)