domingo, 3 de maio de 2020

IV domingo -MAUS PASTORES EM DIAS DE SOMBRA O REBANHO SE PERDEU...MAS EU VOU CASTIGAR! (Jo.10, 1-10)

Em tempos de maus pastores, a liturgia de hoje celebra a festa do ‘BOM PASTOR’, em contraposição àqueles lobos humanos que ameaçam as ovelhas de que deveriam cuidar. Jesus não tem receio em dizer quem são, e onde estão os maus pastores. São todos aqueles que não entram pela porta principal. Ou seja, aqueles que pegam atalhos, que entram na vida pública, nas instituições políticas e religiosas, de forma sorrateira, clandestina, que armam e cometem arbitrariedades e abusos longe da presença das ovelhas, mas para prejudicá-las. Pastores farsantes que se valem da ingenuidade e da fragilidade das ovelhas para sangrá-las, para arrancar o pouco que ainda lhes resta de liberdade e dignidade. Mas onde estão esses maus pastores? Onde se escondem? Jesus nos diz que eles se ‘ENCONTRAM’ no templo, no ‘aprisco’. Eles ocupam os lugares institucionais de visibilidade, e de aparente legalidade. Isso produz insegurança e confusão na mente das ovelhas: elas imaginam que encontram abrigo no aprisco e proteção ao lado de seus pastores, mas, ao contrário, encontram destruição e dispersão. O disfarce de ‘pastor’ serviu para tomar de conta das ovelhas. E quem é o bom pastor? E qual a sua missão? Bom pastor é todo aquele que como Jesus ‘CONDUZ AS OVELHAS PARA FORA’ do templo, para longe do aprisco que se tornou um matadouro. Jesus queria conduzir para longe da dominação do templo o maior número possível de ovelhas ‘impuras, amaldiçoadas, excluídas, condenadas’ pelas instituições e dar-lhes liberdade, sem trancafiá-las num outro aprisco-matadouro! Não há como negar que nesse dramático momento que o nosso país está atravessando muitas ovelhas estão sendo covarde e irresponsavelmente atacadas por aqueles falsos pastores de coração de lobo que se apoderaram das instituições públicas e religiosas para melhor estraçalhar as indefesas ovelhas. Hoje, como Jeremias, há muitos anos atrás, queremos proclamar em alto e bom som: ‘Assim diz o Senhor, Deus de Israel, aos pastores que tomam conta do meu povo: "Foram vocês que dispersaram e expulsa­ram o meu rebanho e não cuidaram dele. Mas eu vou castigar vocês pelos seus maus procedimen­tos”, declara o Senhor’.(Jr. 23,2)

sábado, 2 de maio de 2020

IGREJAS VAZIAS, UM SINAL DE DEUS? Por Tomás Halik

A Igreja como hospital de campanha
Que tipo de desafio essa situação de pandemia representa para o cristianismo, para a Igreja (um dos primeiros “agentes globais”) e para a teologia? O Papa Francisco disse que a Igreja deveria ser um “hospital de campanha”: uma metáfora que indica que a Igreja não deve ficar em um esplêndido isolamento do mundo, mas deve derrubar as suas fronteiras e ir, levar ajuda a todos os lugares onde as pessoas se encontrem necessitadas física, mental, social e espiritualmente. Se a Igreja deve ser um “hospital”, obviamente ela deve continuar oferecendo a mesma assistência sanitária, social e caritativa que ofereceu desde as origens da sua história. Mas, como qualquer bom hospital, a Igreja também deve realizar outras tarefas. Deve fazer diagnósticos (identificando os “sinais dos tempos”), fazer prevenção (criando um “sistema imunológico”, em uma sociedade em que dominam os vírus malignos do medo, do ódio, do populismo e do nacionalismo), e fazer convalescência (ultrapassando os traumas do passado com o perdão).
Igrejas vazias como sinal e desafio
Neste ano, durante a Quaresma, não houve celebrações religiosas em centenas de milhares de igrejas em diversos continentes, mas, também, em sinagogas e mesquitas. Como padre e teólogo, reflito sobre essas igrejas vazias ou fechadas como um sinal e um desafio de Deus. Compreender a linguagem de Deus, nos acontecimentos do nosso mundo, exige a arte do discernimento espiritual, que, por sua vez, exige um desapego contemplativo das nossas emoções e dos nossos preconceitos exacerbados, assim como das projeções que damos aos nossos medos e aos nossos desejos.
Nos momentos de calamidade, os “agentes adormecidos de um Deus mau e vingativo” difundem o medo e preparam um capital religioso para si mesmos. Há séculos, a sua visão de Deus levou água ao moinho do ateísmo. Mas, em um momento de calamidade, eu não vejo Deus como um diretor de mau humor, comodamente sentado nos bastidores dos acontecimentos do nosso mundo. Mas sim como uma fonte de força que opera naqueles que, nessas situações, dão provas de solidariedade e de um amor desinteressado, incluindo também aqueles que agem sem uma “motivação religiosa”. Deus é amor humilde e discreto. Talvez este tempo de edifícios eclesiais vazios ponha simbolicamente em evidência o vazio escondido das Igrejas e o seu possível futuro – se não fizermos um sério esforço de mostrar ao mundo um rosto do cristianismo completamente diferente. Preocupamo-nos muito em converter o “mundo” (o “resto”), e menos em convertermo-nos a nós mesmos; e isso não significa apenas “melhorarmo-nos”, mas passar radicalmente de um estático “ser cristãos” a um dinâmico “tornar-se cristãos”.
Um apelo à reforma
Talvez devamos aceitar a atual abstinência de serviços religiosos e de atividades da Igreja como kairós, como uma oportunidade para pararmos e fazermos uma reflexão profunda e empenhada diante de Deus e com Deus. Estou convencido de que chegou o momento de refletir sobre como continuar o necessário caminho de reforma, indicado pelo Papa Francisco: não tentar regressar a um mundo que já não existe e, também, não confiar apenas em meras reformas estruturais exteriores, mas ir ao centro do Evangelho, fazer uma viagem ao interior. Não vejo como uma solução limitada, sob a forma de substitutos virtuais – como, por exemplo, a transmissão das missas pela televisão –, possa ser uma solução suficiente, neste momento em que o culto público está suspenso. Uma passagem à “devoção virtual”, à “comunhão a distância”, de joelhos na frente de uma tela, é algo sumamente bizarro. Creio que deveríamos, sim, pôr à prova a veracidade das palavras de Jesus: “Onde estão dois ou três reunidos no meu nome, aí estou Eu no meio deles”. Talvez esse “estado de emergência” atual seja um indicador do novo rosto da Igreja. E também um precedente histórico. Estou convencido de que as nossas comunidades cristãs – paróquias, congregações, movimentos eclesiais e comunidades monásticas – deveriam procurar se aproximar do ideal que deu origem às universidades europeias: uma comunidade de alunos e de professores, uma escola de sabedoria na qual a verdade é buscada através do livre debate e, também, da profunda contemplação. Tais ilhas de espiritualidade e de diálogo poderiam ser a fonte de uma força capaz de curar um mundo doente. Na véspera da eleição papal, o cardeal Bergoglio citou um trecho do Apocalipse em que Jesus está à porta e bate. E acrescentou: hoje, Cristo bate a partir de dentro da Igreja e quer sair. Talvez seja aquilo que ele acabou de fazer.
Onde fica a Galileia de hoje?
Neste ano, muitas das nossas igrejas estavam vazias na Páscoa. Mas pudemos ler na nossa casa as passagens do Evangelho sobre o túmulo vazio. Se o vazio das igrejas evoca o túmulo vazio, não ignoremos a voz que vem do Alto: “Ele não está aqui. Ressuscitou! Ele vos precederá na Galileia”. Onde fica a Galileia de hoje, onde podemos encontrar o Cristo vivo? A principal linha de demarcação já não é entre os que se consideram crentes e os que se consideram não crentes. Há quem esteja “em busca” sendo crente (aqueles para quem a fé não é uma “herança”, mas sim um “caminho”), e há quem seja não crente, que rejeita os conceitos religiosos que lhe são propostos pelos que o rodeiam, mas, ao mesmo tempo, sente o desejo ardente de algo que satisfaça a sua sede de sentido.Estou convencido de que a “Galileia de hoje”, onde devemos procurar Deus que sobreviveu à morte, é esse grupo dos que estão “em busca”.
Buscar Cristo entre os buscadores
A teologia da libertação nos ensinou a buscar Cristo entre as pessoas que estão à margem da sociedade. Mas também é preciso buscá-lo por entre as pessoas marginalizadas na Igreja, entre aqueles “que não nos seguem”. Se quisermos entrar em relação com eles como discípulos de Jesus, devemos abandonar várias coisas.Devemos abandonar muitas das nossas velhas ideias sobre Cristo. O Ressuscitado é radicalmente transformado pela experiência da morte. Como lemos nos Evangelhos, até mesmo as pessoas que lhe eram mais próximas e por Ele mais queridas não o reconheceram. Não devemos só tomar como boas as notícias à nossa volta, mas também insistir em querer tocar as feridas. Além disso, onde estaríamos certos de poder encontrá-lo senão nas feridas do mundo e nas feridas da Igreja, nas feridas do corpo que Ele assumiu sobre si?Devemos abandonar os nossos objetivos de proselitismo. Não entramos no mundo dos buscadores para “convertê-los” o mais rapidamente possível e encerrá-los nos perímetros institucionais e mentais das nossas igrejas. Nem mesmo Jesus tentou introduzir à força aquelas “ovelhas perdidas da casa de Israel” nas estruturas do judaísmo do seu tempo. Ele sabia que o vinho novo deve ser derramado em odres novos.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Entrevista com Edgar Morin sobre a atual crise provocada pela pandemia


Essa crise sanitária planetária é uma crise da complexidade?
Os conhecimentos se multiplicam exponencialmente, de repente, transbordam a nossa capacidade de nos apropriarmos deles e, acima de tudo, lançam o desafio da complexidade: como confrontar, selecionar, organizar adequadamente esses conhecimentos, conectando-os e integrando a incerteza. Para mim, isso revela mais uma vez a carência do modo de conhecimento que nos foi inculcado, que nos faz separar aquilo que é inseparável e reduzir a um único elemento aquilo que forma um todo ao mesmo tempo uno e diverso. Com efeito, a revelação fulgurante das convulsões que sofremos é que tudo o que parecia separado está ligado, pois uma catástrofe sanitária catastrofiza em cadeia a totalidade de tudo o que é humano.

Tínhamos uma visão unitária da ciência. No entanto, multiplicam-se em seu interior os debates epidemiológicos e as controvérsias terapêuticas. A ciência biomédica se tornou um novo campo de batalha?
Cidadãos mais bem informados descobrem que certos grandes cientistas têm relações de interesse com a indústria farmacêutica, cujos lobbies são poderosos junto a ministérios e à mídia, capazes de inspirar campanhas para ridicularizar as ideias não conformes....Essa é a oportunidade para compreender que a ciência não é um repertório de verdades absolutas (ao contrário da religião), mas que as suas teorias são biodegradáveis sob o efeito de novas descobertas. As teorias aceitas tendem a se tornar dogmáticas nas cúpulas acadêmicas, e os desviantes, de Pasteur a Einstein, passando por Darwin, e Crick e Watson, os descobridores da dupla hélice do DNA, são os que fazem as ciências progredirem. É que as controvérsias, longe de serem anomalias, são necessárias para esse progresso. A ciência é devastada pela hiperespecialização, que é o fechamento e a compartimentalização dos saberes especializados, em vez da sua comunicação. E são sobretudo pesquisadores independentes que estabeleceram desde o início da epidemia uma cooperação, que agora se alarga entre infectologistas e médicos do planeta. A ciência vive de comunicações, toda censura a bloqueia.

Em que medida podemos tirar proveito da crise?
A crise em uma sociedade suscita dois processos contraditórios. O primeiro estimula a imaginação e a criatividade na busca de soluções novas. O segundo é a busca de um retorno a uma estabilidade passada ou a adesão a uma salvação providencial, assim como a denúncia ou a imolação de um culpado. Esse culpado pode ter cometido os erros que provocaram a crise ou pode ser um culpado imaginário, bode expiatório que deve ser eliminado. Com efeito, ideias desviantes e marginalizadas estão se espalhando confusamente: retorno à soberania, Estado de bem-estar social, defesa dos serviços públicos contra as privatizações, relocalizações, desmundialização, antineoliberalismo, necessidade de uma nova política. Personalidades e ideologias são identificadas como culpadas. E também vemos, na carência dos poderes públicos, uma profusão de imaginações solidárias: produção alternativa à falta de máscaras por empresas reconvertidas ou confecção artesanal, reagrupamento de produtores locais, entregas gratuitas em domicílio, ajuda mútua entre vizinhos, refeições gratuitas para sem-teto, creches; além disso, o confinamento estimula as capacidades auto-organizadoras para remediar através da leitura, da música, dos filmes a perda de liberdade de movimento. Assim, autonomia e inventividade são estimuladas pela crise.

Quais são os contornos dessa deflagração mundial?
Como crise planetária, ela coloca em destaque a comunidade de destino de todos os humanos, ligada inseparavelmente com o destino bioecológico do planeta Terra. Ela intensifica simultaneamente a crise de humanidade que não consegue se constituir em humanidade. Como crise econômica, ela abala todos os dogmas que governam a economia e ameaça se agravar em caos e penúrias no nosso futuro. Como crise nacional, ela revela as carências de uma política que favoreceu o capital em detrimento do trabalho, sacrificando a prevenção e a precaução para aumentar a rentabilidade e a competitividade. Como crise social, ela traz à tona cruamente as desigualdades entre aqueles que vivem em pequenas habitações povoadas de crianças e pais, e aqueles que puderam fugir para a sua segunda residência no campo.
Como crise civilizacional, ela nos leva a perceber as carências em termos de solidariedade e a intoxicação consumista que a nossa civilização desenvolveu; e nos pede que reflitamos sobre uma política de civilização (“Une politique de civilisation”, com Sami Naïr, Ed. Arléa, 1997). Como crise intelectual, ela deveria nos revelar o enorme buraco negro na nossa inteligência, que torna invisíveis para nós as evidentes complexidades do real.
Como crise existencial, ela nos leva a nos interrogar sobre o nosso modo de vida, sobre as nossas verdadeiras necessidades, sobre as nossas verdadeiras aspirações mascaradas nas alienações da vida cotidiana, a diferenciar entre a diversão pascaliana que nos desvia das nossas verdades e a felicidade que encontramos na leitura, na escuta ou na visão de obras-primas que nos fazem encarar de frente o nosso destino humano. E, acima de tudo, ela deveria abrir os nossos espíritos, há muito tempo confinados ao imediato, ao secundário e ao frívolo, para o essencial: o amor e a amizade pela nossa realização individual, a comunidade e a solidariedade dos nossos “eu” convertidos em “nós”, o destino da Humanidade da qual cada um de nós é uma partícula. Em suma, o confinamento físico deveria favorecer o desconfinamento dos espíritos.

O Deus de Jesus ou ' correta' liturgia? I

A Igreja se organizou de maneira que a liturgia, como “culto sagrado”, deixa a impressão que, para muita gente e na prática diária da vida, é mais importante que Deus. E, como consequência, é mais determinante os seus costumes e hábitos de vida que o Evangelho. Por isso, é compreensível que o cardeal Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, pretenda deter a reforma litúrgica que o Concílio Vaticano II colocou em marcha.

Que explicação esta pretensão de imobilismo e conservadorismo do cardeal Sarah pode ter? Por que ainda há gente que sente a falta da missa em latim ou das cerimônias litúrgicas à moda antiga? O problema que estas perguntas apresentam é mais sério do que alguns imaginam. O “fato religioso” é tão antigo como o ser humano. Ou seja, a religião nasceu há uns 100.000 anos.Mas, a religião nasceu de tal maneira que a primeira coisa, o mais original, no fato religioso, não foi Deus, mas, sim, os ritos. Concretamente, os ritos de sacrifício. Matava-se um animal, segundo um cerimonial predeterminado, e isso reunia o grupo (de caçadores nômades) e, segundo parece, produzia uma efeito tranquilizante e pacificador dos sentimentos naturais de culpa, que brotam em todo ser humano. Certamente, o pano de fundo destas condutas se compreende a partir do que é o sacrifício em si.

Tendo isto presente, o que se pode afirmar (como fato sobradamente demonstrado) é que “Deus é um produto tardio na história da religião” (G. van der Leeuw, K. Lorenza, W. Burkert). Quando os humanos começaram a pensar em Deus? Não é possível precisar. Sabe-se com segurança que a ideia de Deus está indissociavelmente unida à prática do sacrifício. De qualquer modo, nas práticas religiosas que conhecemos até o Neolítico (uns 11.000 anos a. C.), ao menos na Europa, não há rastro de crenças ou relação alguma com Deus. Ou seja, o ser humano praticou rituais religiosos relacionados à caça, à morte, à passagem para outra possível forma de vida. E essa foi sua religião durante uns 90.000 anos.Isto é o que explica que haja tanta gente que é mais fiel à exata observância dos ritos sagrados, que a sua correta relação com Deus. É que os ritos são ações que, devido ao rigor na observância das normas, chegam a constituir um fim em si mesmos. De onde resulta que, no âmbito da conduta, ocorre com frequência que o “rito” se sobrepõe ao “ethos” (G. Theissen). E, então, nos deparamos com o fato, tão frequente entre os cristãos, daqueles que são fiéis observantes de normas e cerimônias sagradas, mas ao mesmo tempo deixam muito a desejar em sua conduta. Ou são simplesmente gente sem vergonha.

Pois bem, tendo em conta o que acabo de explicar, compreende-se que, já no Antigo Testamento, o enfrentamento dos Profetas com os Sacerdotes foi frequente e até mortal. Mas, sobretudo, isto é o que explica a originalidade da vida, a conduta e os ensinamentos de Jesus. A relação de Jesus com os observantes (sacerdotes, levitas, fariseus, mestres da Lei) foi um constante enfrentamento. Como foi um conflito sua relação com o Templo. Jesus não instituiu nenhum ritual. Nem a ceia de despedida foi um ritual, coisa que deixou patente o IV evangelho. Nem a morte de Jesus foi um sacrifício sagrado. Aquela morte não podia ser um “sacrifício ritual”. Foi um “sacrifício existencial”, como ficou patente na carta aos Hebreus (7, 27; 9, 9-14) (A. Vanhoye). Daí, a exortação final: “Não se esqueçam da solidariedade e de fazer o bem, que esses sacrifícios são os que agradam a Deus” (Hb 13, 16).

O integrismo litúrgico do cardeal Sarah é um assunto grave, muito grave. É um assunto que toca o próprio coração do Evangelho. Aquele que tranquiliza sua consciência porque vai à missa, reza pela manhã e pela noite ou coisa do estilo, se não é honrado, transparente e pratica a justiça, acima de tudo, é um farsante que, mais que enganar a sociedade e a Igreja, é um indesejável que engana a si próprio. Enquanto a Igreja não resolver esta grande mentira, não irá a parte alguma. Dá para compreender por que há tantos cristãos que não suportam o Papa Francisco?

O Deus de Jesus ou a 'correta' liturgia? II

Pela lei da vida, a grande geração de teólogos, que tornaram possível a renovação teológica realizada pelo Vaticano II, está a ponto de se extinguir completamente. E nas décadas seguintes, infelizmente, não surgiu uma geração nova que pôde continuar o trabalho que os grandes teólogos do século XX iniciaram. Os estudos bíblicos, alguns trabalhos históricos e algo também no que se refere à espiritualidade são âmbitos do 'quefazer' teológico que se mantiveram dignamente. Mas, inclusive movimentos importantes, como ocorreu com a Teologia da Libertação, dão a impressão que estão vindo abaixo.
O que aconteceu na Igreja? A primeira coisa que deveríamos levar em conta é que o que estamos vivendo nesta ordem de coisas é muito grave. Os demais âmbitos do saber não param de crescer: as ciências, os estudos históricos e sociais, as mais diversas tecnologias sobretudo, surpreendem-nos todos os dias com novas descobertas. Ao passo que a teologia (falo, concretamente, da católica) segue firme, inacessível ao desalento, a cada dia interessando a menos gente, incapaz de dar resposta às perguntas que são feitas por tantas pessoas e, sobretudo, empenhada em manter, como intocáveis, supostas “verdades” que não sei como podem continuar sendo defendidas a estas alturas.

Para apresentar alguns exemplos: Como podemos seguir falando de Deus, com a segurança com que dizemos o que pensa e o que quer, sabendo que Deus é o Transcendente, que – portanto – não está ao nosso alcance? Como é possível falar de Deus sem saber exatamente o que dizemos? Como se pode assegurar que “por um homem o pecado entrou no mundo”? É que iremos apresentar como verdades centrais de nossa fé o que, na realidade, são mitos que possuem mais de 4.000 anos de antiguidade? Com quais argumentos é possível afirmar que o pecado de Adão e a redenção desse pecado são verdades centrais de nossa fé? Como é possível defender que a morte de Cristo foi um “sacrifício ritual” que Deus precisou para perdoar nossas maldades e nos salvar para o céu? Como é possível dizer às pessoas que o sofrimento, a desgraça, a dor e a morte são “bênçãos” que Deus nos envia? Por que continuamos mantendo rituais litúrgicos que têm mais de 1.500 anos de antiguidade e que ninguém mais compreende, nem sabe por que continuam sendo impostos às pessoas? De verdade, acreditamos no que nos dizem em alguns sermões sobre a morte, o purgatório e o inferno? Enfim, a lista de perguntas estranhas, incríveis e contraditórias seria interminável. E, enquanto isso, as igrejas vazias ou com algumas pessoas idosas, que comparecem à missa por inércia ou por costume. É uma teologia que não leva a sério o mais importante da teologia cristã, que é a “encarnação” de Deus em Jesus. O chamado de Jesus para “segui-lo”. A exemplaridade da vida e do projeto de vida de Jesus. E a grande pergunta que nós, crentes, teríamos que enfrentar: Como tornamos presente o Evangelho de Jesus, neste tempo e nesta sociedade que nos coube viver?

Termino insistindo em que o controle de Roma sobre a teologia foi muito forte, desde o final do pontificado de Paulo VI até a renúncia ao papado por Bento XVI. O resultado foi tremendo: na Igreja, nos seminários, nos centros de estudos teológicos, há medo, muito medo. E bem sabemos que o medo bloqueia o pensamento e paralisa a criatividade. A organização da Igreja, nesta ordem de coisas, não pode continuar como esteve por tantos anos. O Papa Francisco quer uma “Igreja em saída”, aberta, tolerante, criativa. Mas, seguiremos adiante com este projeto? Infelizmente, na Igreja há muitos homens, com cetros, que não estão dispostos a deixar o poder, da forma como eles o exercem. Se é assim, adiante! Logo teremos liquidado o pouco que nos resta. (Fonte: IHU)

sábado, 18 de abril de 2020

O Conselho da Amazônia é formado unicamente por militares. IBAMA e FUNAI estão fora!

O Conselho Nacional da Amazônia passará a operar na Vice-Presidência da República, sem a presença de representantes do Ibama e da Funai (Fundação Nacional do Índio).O Conselho será composto por 15 coronéis (12 do Exército e três da Aeronáutica), um general, dois majores-brigadeiros e um brigadeiro.O presidente do órgão será o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB), vice-presidente da República.

A reportagem do portal Uol destaca que "o Conselho tem por objetivo, segundo o decreto de fevereiro assinado pelo presidente Jair Bolsonaro, que o transferiu do MMA (Ministério do Meio Ambiente) para a Vice-Presidência, "coordenar e acompanhar a implementação das políticas públicas relacionadas à Amazônia Legal". Suas competências são amplas e genéricas, como "coordenar e integrar as ações governamentais relacionadas à Amazônia Legal" e "coordenar ações de prevenção, fiscalização e repressão a ilícitos", hoje uma atribuição do Ibama."

A matéria ainda informa que "o decreto não estabeleceu nenhum representante de povos indígenas, quilombolas, pescadores ou outras comunidades tradicionais da região. Os nomes que vão compor as quatro comissões temáticas do órgão foram listados em portaria assinada por Mourão e publicada no "Diário Oficial" desta sexta-feira (17). Além dos 19 militares, há quatro delegados da Polícia Federal, indicados pelo Ministério da Justiça e da Segurança Pública (Sergio Moro). A Funai (Fundação Nacional do Índio) também é órgão vinculado ao ministério de Moro, mas não há nomes de indigenistas especializados no conselho." (Fonte Brasil 247)

Os relatos pós morte de Jesus - A superação de sentimentos de culpa e medo dos seus seguidores desencadeia o movimento da Ressurreição

Muitas vezes ficamos como que paralisados diante das narrações evangélicas sobre a Ressurreição de Jesus, após a sua morte biológica. Não é pra’ menos. Os autores usam, sabidamente, uma linguagem um tanto obscura para nós do século XXI e, ao mesmo tempo, procedem de forma metafórica, e não historiográfica. Fazem teologia, catequese, espiritualidade...mas não só. Os nossos teólogos são, também, profundos conhecedores da alma humana, de suas reações e ecos diante de experiências humanas, traumáticas, de perdas, e de intensos sofrimentos causados por sentimentos de culpa. Um verdadeiro emaranhado de conflitos interiores, perturbações, síndromes do pânico, bipolaridade, inquietudes, vazios espirituais, e confusão de sentimentos de vário tipo são relatados nas narrações da Ressurreição, embora com outra terminologia.  

Tudo isso emerge naquele período de transição em que os seguidores de Jesus sentem de um lado o peso da ausência do Mestre, a inegável omissão do grupo, a sua consequente fuga e dispersão e, do outro lado, o aparecimento tênue, indefinido, mas crescente e consistente, de que o Jesus historicamente conhecido e, agora, fisicamente ausente, poderia ser sentido ainda presente de uma forma inédita. Inicialmente, mediante o resgate mnemônico, plural, e interno, de palavras e gestos e, posteriormente, através de uma crescente convicção psicoespiritual de que o ‘morto’ estava vivo, e que continuava a convocar e a inspirar o grupo histórico dos seguidores de Jesus.  
Concretamente, quais são os elementos comuns que perpassam praticamente todas as narrações evangélicas e que manifestam a grande sensibilidade dos autores em descrever e explicitar o conjunto de sentimentos contraditórios de culpa, de autocobrança, de traição e omissão? E, simultaneamente, o aparecimento de percepções novas de uma presença renovada do Mestre que intervém para orientar o inédito momento presente do grupo e, principalmente, o seu futuro próximo? Ao responder a essas questões estaremos tentando responder, indiretamente, a nós mesmos quando fazemos a mesma experiência humana, existencial, de perder alguém muito querido e amado, e nos sentimos culpados por acharmos que não fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para livrá-lo da morte. Ou, pior, o sentimento de nos sentir cúmplices da sua morte. E por causa disso vivemos o drama interior de não conseguir ‘nos dar paz!’ Como superar isso? Mais que isso: se o Jesus histórico pudesse voltar e estar presente no meio do seu grupo que vivencia hoje aqueles mesmos sentimentos tão contraditórios, o que Ele lhe diria? Esses textos evangélicos mostram a extrema liberdade e o radical pluralismo dos evangelistas em interpretar e colocar como ‘palavra revelada’ o que o Jesus histórico nunca disse, mas que ‘teria dito, com certeza’ se Ele mesmo pudesse aparecer e sentar no meio deles....
1.    Um dos principais elementos comuns é o convite de Jesus a fazer com que os seus seguidores ‘sintam paz’. É comum achar que Jesus ressuscitado ao utilizar a expressão ‘a paz esteja convosco’, esteja saudando simplesmente os seus como se fosse uma espécie de ‘bom dia ou boa tarde’. Aparece, no entanto, com bastante intensidade que aquele modo de se apresentar é algo mais profundo. Por que o Ressuscitado utiliza essa expressão? Justamente por perceber que os seus seguidores não estão em paz! Vivem dentro de si sentimentos de culpa, de abandono, de decepção e de frustração, de dor pela perda do Mestre. Enfim, não conseguem se dar paz! Vivem de forma conturbada o seu cotidiano. Não conseguem absorver sequer as lembranças positivas da sua convivência com Jesus. Sentem-se condicionados demais por um passado recente que os julga e os condena por suas traições, medos, e fugas. Cada um dos integrantes do grupo precisava se reconciliar consigo mesmo. E virar, definitivamente, página. Sentir, existencialmente, que aquele Jesus misericordioso que era capaz de perdoar os piores pecadores da sua época, certamente, iria perdoar cada um deles também! Praticamente em todas as ‘aparições’, quando Jesus entra na casa onde o grupo está ‘trancafiado’ - muito mais por seus próprios medos do que pelas perseguições dos judeus, - os discípulos imaginam um Jesus que escancara o seu fechamento interior, e volta a oferecer, incondicionalmente, a paz e o perdão. É historicamente irrefutável que entre a morte de Jesus e as primeiras tentativas de reagrupar o núcleo histórico dos seguidores de Jesus sobre uma ‘nova consciência’, se passaram alguns anos, não dias! A memória histórica de um Jesus que reaparece, progressivamente, entre eles, criando paz interior, faz com que os seguidores do Mestre iniciem uma nova e inédita etapa em suas vidas!
2.    Outro indicador que aparece com frequência é o fato de Jesus se manifestar aos seus seguidores quase sempre ‘comendo’ e nisso é reconhecido como presente. Observa-se que o Jesus experimentado como vivente não utiliza a comida como prova material para afirmar que ressuscitou, mas são os próprios seguidores que tomam consciência que era nos banquetes, junto aos pecadores, que Ele manifestava toda a sua misericórdia e compaixão. Um bom judeu nunca sentava à mesa com um seu inimigo se não existisse a intenção clara e as garantias de que ambas as partes estavam abertas para se reconciliar, enfim, fazer as pazes! Comer no mesmo prato não era para qualquer um. Os discípulos, em seu resgate mnemônico, após a morte de Jesus, percebem que se Jesus pudesse voltar a viver novamente entre eles, certamente sentaria à mesa com eles manifestando, dessa forma, que já não existia qualquer tipo de rancor ou de inimizade. Não é à toa que os dois discípulos de Emaús o reconhecem ao partir e partilhar o pão, pois não era um alimento que estava oferecendo, e sim, amizade e reconciliação. Não é mera coincidência que os seguidores de Jesus fizeram do banquete eucarístico o sinal-sacramento, por excelência, da presença de Jesus. Infelizmente, com o tempo foi transformado num rito rígido, hierarquizado, elitizado e monopolizado, mas no início não era assim. Fazer memória da presença de Jesus sentados à mesma mesa e partilhar pão e vinho (a fração do pão) era expressão de uma igreja não hierarquizada, leiga, solidária, em que os ‘pais de famílias’, em sistema de rodízio, eram os que coordenavam ‘o memorial’ da vida, morte e Ressurreição de Jesus. Em tempos de COVID19 em que medo, doença, insegurança, desemprego e morte formam uma mistura dramática, aqueles homens e mulheres que compreendem o valor do ‘banquete solidário’ - que alimenta corpos e almas, - manifestam de forma digna e autêntica a ‘presença real’ do mesmo Jesus histórico que oferecia a tantos famintos ‘pão e peixe’ com sabor de compaixão e de ternura sem limites.
3.    Um último elemento comum é que o Jesus que aparece após a morte nunca é percebido como um vivente que ‘consola’ e conforma as pessoas. Um Jesus que traz a paz ao coração para que a pessoa curta, intimamente, a sua serenidade readquirida. Ao contrário, o Jesus que volta a ser sentido como o vivente é um Jesus que questiona, remotiva, reconvoca, e chama para o seguimento dele e, principalmente, manda sair, e envia. Quem faz a experiência de se sentir perdoado e reconciliado consigo mesmo, - e, portanto, em paz e livre, - não pode segurar e trancafiar dentro de si essa sua nova realidade. Essa nova consciência. Essa graça. As assim chamadas aparições são artifícios literários e teológicos para dizer que o Jesus histórico que se foi, continua, hoje, como outrora, a chamar e coordenar o grupo e, mais do que nunca, para longe de Jerusalém. Significativo é o fato comum a todos os evangelistas de que somente na ‘Galileia dos pagãos’, - longe da cidade que mata seus profetas, - é que Jesus pode ser visto/sentido. Não num templo ou numa sinagoga, nem através de práticas de piedade, rezas e meditações, mas nos gestos de cuidado, de ternura, de compaixão de tantos pobres e impuros de todas as nações que podemos sentir o Ressuscitado. Ele continua a ‘levantar/ressuscitar’ coxos, cegos e doentes, caídos à beira do caminho, através de seus discípulos que precisam ressuscitar, permanentemente, superando desânimos e desmotivações!