quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Brasil resgatou 3,1 mil trabalhadores escravizados em 2023

O Brasil resgatou, em 2023, 3.151 trabalhadores em condições análogas à escravidão. O número é o maior desde 2009, quando 3.765 pessoas foram resgatadas. Apesar dessa alta, o dado mostra como o país regrediu no período recente porque o número de auditores fiscais do trabalho está no menor nível em 30 anos.

Com esses dados, subiu para 63,4 mil o número de trabalhadores flagrados em situação análoga à escravidão desde que foram criados os grupos de fiscalização móvel, em 1995. O trabalho no campo ainda lidera o número de resgates. A atividade com maior número de trabalhadores libertados foi o cultivo de café (300 pessoas), seguida pelo plantio de cana-de-açúcar (258 pessoas). Entre os estados, Goiás teve o maior número de resgatados (735), seguido por Minas Gerais (643), São Paulo (387) e Rio Grande do Sul (333).

Por trás das estatísticas, restam histórias de abuso nos campos e nas cidades que mostram como o trabalho análogo à escravidão ainda é recorrente no Brasil. Em fábricas improvisadas, em casas de alto padrão, nas plantações, crimes continuam a ser cometidos. “Foram 30 anos sem ganhar salário. Até chegou um ponto de ela não querer deixar mais que eu comesse, que eu tomasse café. Eu só podia ir para meu quarto tarde da noite, não podia conversar mais com ninguém”, contou uma trabalhadora idosa resgatada, entrevistada pela TV Brasil em março do ano passado. Ela acabou morrendo de uma parada cardiorrespiratória antes de receber qualquer indenização da Justiça. “Acordava de manhã e só ia dormir quase meia-noite. Sem contar que eles me xingavam muito, ficavam falando palavrão. Ficavam xingando minha raça, me chamando de negra e aquelas coisas todas. Quando foi um belo dia, apareceu a Polícia Federal e aí ocorreu tudo”, conta outra trabalhadora entrevistada pela TV Brasil, que ainda aguarda indenização. Essas duas mulheres foram resgatadas do trabalho doméstico.

Problemas

Um dos desafios para que o resgate de trabalhadores em situação análoga à escravidão continue crescendo é a falta de auditores fiscais. “Era esperado até [esse problema] porque, nos últimos quatro ou cinco anos, não tivemos ações diretas de combate ao trabalho escravo. Então, foram represando muitos pedidos de ajuda por parte de trabalhadores que estavam em situação análoga à de trabalho escravo. Por isso, a gente não vê como surpresa, mas sim, vê ainda como uma carência. Porque temos poucos auditores do Ministério do Trabalho fazendo as fiscalizações”, diz Roque Renato Pattussi, coordenador de projetos no Centro de Apoio Pastoral do Migrante. O Ministério do Trabalho e Emprego reconhece a falta de pessoal. Ele, no entanto, afirma que o governo conseguiu aumentar o número de resgates mesmo com o número de auditores fiscais do trabalho no menor nível da história.

“É uma prioridade da Secretaria de Inspeção do Trabalho fiscalizar, num sentido amplo, o trabalho doméstico e, especificamente, casos de trabalho escravo doméstico. Temos menos de 2 mil auditores fiscais do trabalho na ativa. Esse é o menor número desde a criação da carreira, em 1994. Mesmo assim, conseguimos entregar, em 2023, o maior número de ações fiscais”, destaca. (IHU)


terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Rovelli, a fé e o princípio do prazer. Artigo de Andrea Grillo

Há tempo circula na rede uma “declaração” na qual Carlo Rovelli, físico de reconhecida fama, defende o seu ateísmo com uma série de “gosto” e “não gosto”.

Uma tradição que demoniza o princípio do prazer pode e deve ser corrigida por uma nova consideração do prazer. Mas a identificação do bem com “o que gosto” não contesta apenas as tradições religiosas, mas também as diferenças culturais entre vegetal, animal e humano. Uma relação direta com o bem, no homem, nunca ocorre imediatamente. Nas mediações nunca nos saímos bem apenas com disputa de gustibus. Não para ser soberbos ou se sentir superiores, mas para respeitar o fenômeno. Digamos que por escrúpulo científico. Não é a fé, mas a complexidade da realidade humana e moral que nos obriga a não nos determos no princípio do prazer. Vou tentar formular uma espécie de “contraponto” ao texto de Rovelli, não apenas para dizer coisas diferentes, mas para valorizar, na medida do possível, um estilo e uma forma diferentes de apresentar a mesma questão.

O que eu gosto não é necessariamente o meu bem. O que eu não gosto não é necessariamente o meu mal. Esse é o grande mistério da natureza dos homens e das mulheres: não ser imediatamente eles mesmos. E encontrar a si mesmos no caminho de uma existência exposta ao mistério incompreensível da liberdade e da graça. Como uma árvore e um cachorro, vivemos, sentimos e sofremos. Mas, ao contrário da árvore e do cachorro, não somos já nós mesmos, mas procuramos a nós mesmos no caminho da existência, diante dos outros e graças aos outros, diante de Deus e graças a Deus: nessa diferença entre realidade e função reside a liberdade e o pecado. Agir apenas com base no bem é o nosso ideal, mas nem sempre esse bem se apresenta como “aquilo de que gostamos”. Existem bens que têm um “prazer diferido” e que no imediato não nos parecem ser o nosso bem. Esse é o reino da “tradição”: o reino de bens que não são autoevidentes. A fé não é um imediato “sistema de controle”, mas uma tradição da “perda de controle”. É reconhecer o mistério da graça e da liberdade, que fala em cada coisa, tanto na folha como nas estrelas. Procurar o bem por medo de uma sanção não é típico da fé, mesmo que a forma humana de vida é estruturada também por sanções. Porém, sair do “medo do mal” como caminho para o bem não é tão simples. O ideal de “fazer o bem por amor ao bem”, se quiser remediar a captura de um slogan, deve assumir formas concretas: a “gratuidade” da relação com o bem não pode prescindir de uma noção de “graça” que vai além de si mesmos. Ou um dever ou um ser está além da imediata identidade entre prazer e bem. É por isso que o problema do “bem pelo bem” tem preocupado os homens há séculos.

Além disso, existe outra dimensão a considerar: a oração, o culto e a liturgia, o “agradar a Deus” e “dar-lhe graças” e “aproveitar o silêncio”. É justo lamentar um mutismo mágico que paralisa as nossas funções. Mas não é isso que agrada a Deus. Reunir-se para louvar e prestar graças, olhando os rostos e desfrutando do mistério da palavra e do silêncio, do canto e do movimento, é justamente o que a tradição, que preserva as coisas não evidentes, nos entregou ao longo dos séculos. Não funções anônimas, mas lugares de comunhão apaixonada, que fala em primeiro lugar aos sentidos e ao tato, para iluminar a vontade e confortar o intelecto. Deus não explica a realidade e não promulga leis morais. Distinguir entre o bem e o mal é precisamente o centro de um equívoco: a pretensão de distinguir imediatamente é pecado, não virtude. Virtude é aceitar a relação como lugar de abertura à distinção moral entre certo e injusto: o que é diferente tanto da distinção entre prazer e desprazer como da distinção entre útil e prejudicial. Na relação com Deus e com o próximo (que não pode ser contida em nenhuma palavra e em nenhuma ação) cada homem e cada mulher encontra o caminho, não predeterminado, para o bem. Crer é, justamente, permanecer nessa relação, da qual ninguém tem o monopólio. Seguir Jesus, para simplificar, consiste nessa humilde aceitação da finitude, de necessidade do outro, rumo à felicidade que é “palavra cheia de mistério” (fé), “caminho para o não visível” (esperança) e “amor sem medida” (caridade).

A esperança é o oposto do desespero, claro, mas também o oposto da presunção. O estereótipo do crente como o presunçoso que sabe tudo sobre o universo, faz o bem apenas para evitar o mal, participa passivamente de funções sem sentido, dita leis sobre o mundo natural ou moral, é a caricatura da fé. Uma caricatura de sucesso, que agrada, mas que a fé autêntica vê com extrema preocupação. As razões para crer são mais fortes do que a justa crítica à caricatura da fé. A revelação do mistério não é “explicação científica” das coisas, mas experiência mais intensa do mistério e da radical incompreensibilidade das coisas, que se abre à luz só na relação pessoal com o próximo e com Deus, sem monopólios e sem presunção, mas com confiança e esperança. Para não reduzir a relação com o mundo ao eu gosto ou não gosto, sabendo que a mediação dos sentidos é inevitável, mas nunca é o critério final: não o é para a fé, mas nem mesmo para a ciência, se não estou enganado. (IHU)

Por que sou ateu. Artigo de Carlo Rovelli

 Várias pessoas me perguntaram por que digo que não acredito em Deus. Aqui está a minha resposta.

Eu não gosto daqueles que se comportam bem por medo de acabar no inferno. Eu prefiro aqueles que se comportam bem porque gostam de se comportar bem. Não gosto daqueles que são bons para agradar a Deus. Prefiro aqueles que são bons porque são bons. Não gosto de respeitar os meus semelhantes porque são filhos de Deus. Gosto de respeitá-los porque são seres que sentem e que sofrem. Não gosto de quem se dedica ao próximo e cultiva a justiça, pensando assim agradar a Deus. Gosto de quem se dedica ao próximo porque sente amor e compaixão pelas pessoas.

Não gosto de me sentir em comunhão com um grupo de pessoas ficando calado dentro de uma igreja ouvindo uma função. Gosto de me sentir em comunhão com um grupo de pessoas olhando os meus amigos nos olhos, conversando com eles e olhando o seu sorriso. Não gosto de me emocionar diante da natureza porque Deus a criou tão linda. Gosto de me emocionar porque é tão linda.

Não gosto de me consolar com a morte pensando que Deus me acolherá. Gosto de olhar na cara a limitação da nossa vida e aprender a sorrir com afeto para a irmã morte. Não gosto de me fechar em silêncio e orar a Deus. Gosto de me fechar em silêncio e ouvir as profundezas infinitas de silêncio. Não gosto de agradecer a Deus: gosto de acordar de manhã olhando o mar e agradecer ao vento, às ondas, ao céu e ao perfume das plantas, à vida que me faz viver, e ao sol que se levanta.

Não gosto daqueles que me explicam que Deus criou o mundo, porque acho que nenhum de nós sabe de onde vem o mundo; acho que quem diz sabê-lo está se iludindo; prefiro olhar o mistério de frente, sentir sua tremenda emoção, em vez de tentar extingui-lo com fábulas. Não gosto daqueles que acreditam em Deus e por isso sabem onde está a Verdade, porque acredito que na realidade são tão ignorantes quanto eu. Acredito que o mundo ainda é para nós um infinito mistério. Não gosto daqueles que conhecem as respostas. Gosto mais daqueles que procuram as respostas e dizem “não sei”.

Não gosto de quem diz que sabe o que é bem e o que é mal, porque está numa igreja que tem o monopólio de Deus, e não vê quantas igrejas diferentes existem no mundo. Quantas morais diferentes, e cada uma sincera, existem no mundo. Não gosto de quem diz a todo mundo o que todo mundo deve fazer, porque se sente forte graças ao seu Deus. Gosto de quem me dá sugestões moderadas, de quem vive de uma forma que me maravilha e admiro, quem faz escolhas que me emocionam e me fazem pensar.

Gosto de conversar com os amigos, de tentar consolá-los caso estejam sofrendo. Gosto de falar com as plantas, dar-lhes de beber se sentem sede. Gosto de amar. Gosto de olhar para o céu em silêncio. Gosto das estrelas. Gosto infinitamente das estrelas. Não gosto de quem se refugia nos braços de uma religião quando está perdido, quando sofre; prefiro quem aceita o vento da vida, e sabe que os pássaros do céu têm o seu ninho, mas o filho do homem não tem onde reclinar sua cabeça.

E já que gostaria de ser semelhante às pessoas de quem gosto, e não àquelas de quem não gosto, não acredito em Deus. (IHU)

* Carlo Rovelli, italiano, professor no Centro de Física Teórica da Universidade de Marseille, na França, e diretor do grupo de pesquisa em gravidade quântica do Centro de Física Teórica de Luminy

sábado, 30 de dezembro de 2023

Sagrada família - Quem ama, - não importa quem, - já está 'abençoado'!

Nada de mais comum e de mais próximo de nós como na Sagrada Família de Nazaré! Só pensar numa noiva ainda solteira que fica grávida e sem a colaboração do noivo para descartar qualquer veleidade de 'perfeição moral'! E, do outro lado, um noivo que, mesmo se sentindo traído, assume como esposa, - mesmo sem casá-la, - a noiva prometida, a mãe de um filho que não era seu! Parece algo inverossímil, mas a história desse amor transbordante vivenciada e testemunhada por Jesus de Nazaré tem raízes não na fidelidade a leis e preceitos morais de seus pais, mas na experiência concreta de ter sido amado por eles desde o seu nascimento. Não importa se não foi um amor 'abençoado' por um rabino, um padre ou um pastor, ou se foi um amor oferecido por um casal de sexo diferente, ou por um do mesmo sexo, ou por um casal de tios, de padrinhos, ou por uma mãe solteira ou por uma avó. A capacidade de oferecer amor incondicional, de proteger, de cuidar, de estar próximo, de conduzir pela mão e de poder sentar no colo de alguém que ama, ainda é a saída para a família planetária. Não será perfeita como alguém chega a idealizar, mas poderá evitar que surjam mais monstros, e que a família pós-moderna não seja mais autodestrutiva...

O nascimento de Jesus é o desafio da vida. Artigo de Massimo Recalcati

O Natal celebra a festa do nascimento de Jesus, do Deus que se faz homem, que mergulha na vida quebrada que é a nossa vida, a vida de todos os seres humanos. A mensagem cristã não é, de fato, o de abandonar esta vida para alcançar outra vida, uma vida que ele nunca conheceria nem nascimento nem morte, uma vida atemporal, perfeitamente realizada, eterna, removida do inferno de este mundo. Pelo contrário, é continuar a nascer nesta vida, nascer de novo, de nunca deixar de nascer. Trata-se de abraçar plenamente o desafio da vida, da sua insegurança, da sua carência, da uma vida espedaçada. Isto é o que Freud não entende quando reduz a vida cristã a uma vida que gostaria de escapar da dureza do mundo, para uma vida que se protege da turbulência da vida graças ao escudo oferecido por Deus, muito pelo contrário: desde o seu nascimento o ser humano encontra a sua vulnerabilidade e sua insuficiência. A vida cristã não é uma vida assegurada, protegida e garantida, mas vida que experimenta o abandono, a perda, a perplexidade.

O homem de fé não é poupado, não é subjugado por um instinto de segurança, não tende a escapar da dureza da vida, mas ele sempre se vê lançado, como Paulo sublinhou vigorosamente, na "estreiteza", na “perseguição”, na “fome”, na “nudez”, no “perigo” (Rm 8, 35). No caso de nascimento de Jesus, o divino se rebaixa e se esvazia de todo poder sobrenatural para se tornar homem. É a humildade do estábulo, da palha, da manjedoura, do hálito dos animais que aquece a criança que veio do céu. É o desenraizamento de uma vida que não tem casa, nem alojamento, nem residência, nem títulos, nem poder. Até parece a divisão que atravessa a criatura humana descrita pela Torá que foi aqui radicalmente assumida.

Sendo imagem e semelhança de Deus, encarnando o esplendor da criação e, ao mesmo tempo, ser pó destinado a voltar ao pó. A vida afirma-se na sua força nua e, ao mesmo tempo, em sua fragilidade igualmente nua. É isso que sempre nos surpreende no espetáculo do nascimento. Acontece com um gatinho, com uma flor ou para uma criança. Luz e poeira parecem comprimidas em um único espasmo. Nascer novamente, continuamos a nascer, não apesar, mas precisamente porque a nossa vida é feita de pó e é destinado a voltar ao pó. No caso do nascimento, a verdade da vida manifesta-se como vontade de viver. Por esta razão, Sartre acreditava, paradoxalmente, que se deve optar por nascer para realmente nascer. Isso significa que o evento de vida que nasce não pode ser cumprido como um simples acontecimento da natureza, mas exige um ato singular de adesão à vida.


terça-feira, 19 de dezembro de 2023

OMS descreve o hospital Al-Shifa, no norte de Gaza, como um “banho de sangue”

Uma missão conjunta de pessoal da Organização Mundial da Saúde (OMS) e das Nações Unidas conseguiu aceder ontem, sábado, 16 de dezembro, ao interior do hospital Al-Shifa, no norte de Gaza, para entregar material médico e avaliar a situação no país. Centro. A equipe entregou medicamentos e suprimentos cirúrgicos, equipamentos de cirurgia ortopédica e suprimentos e medicamentos para anestesia ao hospital. A equipe descreveu o departamento de emergência como um “banho de sangue”, com centenas de pacientes feridos lá dentro e novos pacientes chegando a cada minuto. Pacientes com lesões traumáticas estavam sendo suturados no chão e tinham tratamento limitado ou nenhum tratamento para dor no hospital. A equipe da OMS disse que o pronto-socorro está tão cheio que é preciso ter cuidado para não pisar nos pacientes no chão. Pacientes críticos estão sendo transferidos para o Hospital Al-Ahli Arab para serem submetidos a cirurgias.


Segundo a OMS, o Hospital Al-Shifa, que atualmente funciona minimamente, precisa urgentemente de retomar pelo menos as operações básicas para continuar a cuidar de milhares de pessoas que necessitam de cuidados médicos que salvam vidas. Al-Shifa, que já foi o maior e mais importante hospital de referência de Gaza, agora abriga apenas um punhado de médicos e algumas enfermeiras, juntamente com 70 voluntários, trabalhando no que a equipe da OMS descreveu como “circunstâncias incrivelmente difíceis”, “hospital que precisa de reanimação”. As salas de cirurgia e outros serviços importantes permanecem fora de serviço devido à falta de combustível, oxigênio, pessoal médico especializado e suprimentos. O hospital só pode fornecer estabilização básica de traumas, não tem sangue para transfusões e tem poucos funcionários para atender o fluxo constante de pacientes. A diálise é fornecida a aproximadamente 30 pacientes por dia, e as máquinas de diálise funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, utilizando um pequeno gerador.

Dezenas de milhares de pessoas deslocadas estão a usar o edifício do hospital e os seus terrenos como abrigo. Muitos deles pediram à equipa da OMS que contasse ao mundo o que está a acontecer, na esperança de que o seu sofrimento seja em breve aliviado. O Hospital Al-Shifa continua a enfrentar grave escassez de alimentos e água potável para profissionais de saúde, pacientes e pessoas deslocadas. Isto reflecte preocupações sérias e crescentes sobre a fome persistente na Faixa de Gaza e as consequências da subnutrição na saúde das pessoas e na susceptibilidade a doenças infecciosas. “O Hospital Al-Shifa, pedra angular do sistema de saúde de Gaza, deve ser restaurado com urgência para que possa cuidar de um povo sitiado e preso num ciclo de morte, destruição, fome e doença”, resume a organização numa nota de imprensa. (IHU)


Declaração Fiducia supplicans. Francisco abre para a bênção a homoafetivos/as. Artigo de Andrea Grillo

"A Declaração Fiducia supplicans, com um novo 'embora', redimensiona o absolutismo da forma canônica e reabre o espaço para uma Igreja profética também no âmbito matrimonial e sexual. É um começo e uma mudança de paradigma que não deve ser negligenciado", escreve Andrea Grillo, teólogo italiano, em artigo publicado por Come se non, 18-12-2023.

Eis o artigo.

460 anos depois, chega de Roma um documento cuja estrutura assenta num “concessivo”, não tão explícito e perturbador como o de 1500, mas igualmente claro. Depois, tratou-se de colocar um controle formal sobre todos os casamentos entre pessoas batizadas, “mesmo que os casamentos clandestinos sempre tenham sido considerados válidos”; hoje trata-se de poder abençoar toda união sexual “mesmo que a doutrina do matrimônio seja reafirmada”. Vejamos melhor como se expressa o texto da Declaração nas primeiras linhas, com seu “porém”: “Esta Declaração mantém-se firme na doutrina tradicional da Igreja em relação ao casamento, não permitindo qualquer tipo de rito litúrgico ou bênçãos semelhantes a um rito litúrgico que possa criar confusão. O valor deste documento, porém, é oferecer uma contribuição específica e inovadora ao significado pastoral das bênçãos, o que nos permite ampliar e enriquecer a compreensão clássica estritamente ligada a uma perspectiva litúrgica”. Um exame cuidadoso desta passagem nos permite compreender plenamente o seu significado e limites.

a) A “doutrina tradicional da Igreja sobre o casamento” é reafirmada e ao fazê-lo não permite “qualquer tipo de rito litúrgico ou bênção semelhante a um rito litúrgico, que possa criar confusão”. Isto, parece dizer o texto, está em continuidade com aquela compreensão que o Decreto Tametsi inaugurou, atribuindo ao “rito litúrgico eclesial” o caráter constitutivo da sacramentalidade do matrimônio. Isto, deve-se dizer, em 1563, parecia escandaloso. Na verdade, introduziu uma “nova habilidade”, que de uma só vez superou a longa experiência de liberdade ritual, que marcou a tradição durante quase 1.500 anos de vida.

b) Tametsi (embora) o que acaba de ser afirmado permaneça válido, o texto passa a dar uma "contribuição específica e inovadora": trata-se de uma consideração pastoral e litúrgica da bênção, que abre outra consideração dos fatos existenciais e das tarefas eclesiais.

c) Isto, por sua vez, implica um alargamento e um enriquecimento da experiência da “bênção eclesiástica”, o que constitui uma clara “reviravolta” em relação à decisão tridentina.

Eu gostaria de focar brevemente no significado desta contribuição inovadora. Para compreendê-lo, devemos primeiro observar como o ponto de observação mudou em comparação com a Responsum de apenas 2 anos atrás. Nessa resposta negativa, o cerne do argumento era que a “bênção” de um casal do mesmo sexo não só criaria confusão, mas aplicaria a bênção a uma condição que “não pode ser abençoada”. A Declaração responde ao duplo argumento com um esclarecimento inicial: “a bênção é dita de muitas maneiras”. A perspectiva com que foi definida a resposta para 2021 é demasiado estreita e míope. Poderíamos dizer "mesquinha", citando a expressão de Amoris Laetitia 303.

Daí emerge a nova possibilidade, que surge de um uso da “bênção” que não é interno à lógica formal do sacramento, mas que se move entre o coração e a margem mais externa da vida eclesial. A bênção é a capacidade de “reconhecer o bem que existe” e que deve ser ativada precisamente nas condições em que as margens de reconhecimento social e pessoal são mais precárias. Esta abertura libera energias eclesiais em pelo menos três direções principais:

– restitui à “palavra profética” uma dignidade pastoral, que no contexto matrimonial corre o risco de permanecer esmagada sob o registro régio de validade e legitimidade. A bênção diz ao bem onde ele está, segundo as regras, sem as regras e até apesar das regras;

– permite articular a linguagem da Igreja de forma menos rígida, restabelecendo o equilíbrio entre o registro sacerdotal, o registro régio e o registro profético;

– precisamente o “reconhecimento dos fatos” constitui um alargamento das perspectivas da teologia matrimonial, evitando o curto-circuito entre sacramento e contrato, que muitas vezes obriga os profetas e os sacerdotes a falar e a raciocinar antes de mais nada como burocratas.

O Decreto “Tametsi”, há 460 anos, inaugurou um papel oficial para a Igreja que ao longo dos séculos se tornou ao mesmo tempo demasiado e pouco. A Declaração Fiducia supplicans, com um novo "embora", redimensiona o absolutismo da forma canônica e reabre o espaço para uma Igreja profética também no âmbito matrimonial e sexual. É um começo e uma mudança de paradigma que não deve ser negligenciado.